9
A imigração
Introdução
A sociedade paranaense construída nos séculos XVII, XVIII e XIX era escravocrata, baseada na exploração da força de trabalho representada primeiro pelos índios e mais tarde pelos africanos e seus descendentes.
É freqüente afirmar-se que o índio e o negro não tiveram participação importante na formação da população paranaense. Entretanto, em proporção ao número de habitantes, em determinados períodos e espaços, esses contingentes étnicos ocuparam posição significativa.
O censo de 1772 apontava na composição da população do Paraná 1.712 escravos e 5.915 homens livres; a população escrava representava 28,8% dos habitantes. Em Paranaguá, porém, os escravos alcançavam proporções mais elevadas: 44,2% dos habitantes.
A população indígena tinha sua liberdade assegurada nos textos legais, mas na prática a situação era outra. A Carta Régia de cinco de novembro de 1808 determinava: “qualquer morador que segurar alguns índios poderá considerá-los por 15 anos como prisioneiros de guerra, destinando-os ao serviço que mais lhe convier”. Esse subterfúgio praticamente legitimava a escravidão indígena.
Em 1844, o número médio de escravos em Paranaguá era relativamente pequeno: 73% dos proprietários tinham entre um e cinco escravos; apenas 10% possuíam 30 ou mais. Cerca da metade dos escravos estava ocupada na agricultura de subsistência e pouco mais de 20% exerciam ocupações domésticas.
O porto de Paranaguá, entretanto, servia para contrabando de escravos desde o século XVIII. O incidente de grande repercussão ocorrido em 1850 na baía de Paranaguá, quando embarcações que realizavam o tráfico negreiro foram apreendidas pelos ingleses do navio Cormorant, é um exemplo da persistente importação de escravos por aquele porto.
Em 1854, o número de escravos no Paraná somava 10.189, para uma população branca de 33.633 habitantes. É nesse quadro que ao triângulo português-índio-negro vieram somar-se novos elementos étnicos europeus na composição demográfica do Paraná do século XIX.
Ocupação do “vazio agrícola”
A política imigratória foi motivada pela preocupação com os chamados “vazios demográficos”. A vinda dos colonos era necessária para resolver o problema da escassez e carestia dos produtos agrícolas. Visando introduzir o trabalhador, o técnico e o agricultor na Província, Zacarias de Goes e Vasconcelos assina decreto em 21 de março de 1855. Três núcleos haviam sido instalados antes dessa data, por iniciativa do governo imperial: com alemães em 1829 no Rio Negro; a colônia Tereza com franceses no Ivaí em 1847; e a colônia de Superagui, fundada em 1852 com suíços, franceses e alemães perto de Guaraqueçaba. Esses núcleos não tiveram condições de prosperar. Os alemães do Rio Negro acabaram se deslocando para a periferia de Curitiba, onde se instalaram em chácaras.
Duas décadas após a instalação da Província a colonização entrou em sua fase áurea: de 1868 a 1878 instaram-se 60 núcleos coloniais por iniciativa oficial ou particular. Nesse período de definiu como se seguiria a política imigratória da província, tomando o rumo que perdura até o presente. A filosofia dessa política foi formulada por José Antonio Vaz de Carvalhaes em relatório apresentado à Assembléia Legislativa:
“Não contando a província proprietários habilitados a receber colonos por salário ou parceria, porque, como sabeis, sua lavoura é a chamada pequena, portanto a que menos se presta à colonização por aqueles meios, é pela venda ou aforamento de pequenos lotes de terra por módico preço, que se há de realizar, em meu entender, a colonização nesta província” [...].
Ao contrário de outras regiões do Império, onde a imigração supria a carência de mão-de-obra na grande lavoura de exportação, no Paraná o colono europeu foi colocado na produção da agricultura de abastecimento. A imigração introduziria no meio rural paranaense a renovação que iniciaria o processo de mudança da estrutura agrária.
A nova política espalhou-se pela província inteira e nos anos de 1885 e 1886, o presidente Alfredo d’Escragnolle Taunay criou sociedades de imigração em onze localidades: Paranaguá, Curitiba, Superagui, Porto de Cima, Morretes, Antonina, Campo Largo, Lapa, Ponta Grossa, Castro e Guarapuava.
Essas associações foram eficientes na promoção dos serviços de imigração. A intensificação da propaganda, a construção de ferrovias, a abolição da escravatura e a proclamação da República intensificaram a entrada de imigrantes no Brasil, atingindo-se quotas anuais de 200 mil por ano.
Crescimento da população do Paraná no século XIX decorrente da imigração
Ano habitantes
1822 - 32.678
1836 - 42.890
1847 - 47.950
1854 - 62.258
1872 - 126.722
1890 - 249.491
1900 - 327.136
Devido à crescente procura do Brasil pelos imigrantes nas décadas de 1890 e 1900, mais de 40 novos núcleos coloniais foram criados no Paraná, apoiados tanto pelo governo central ou por iniciativa de particulares e ainda pelo próprio governo paranaense.
A variedade étnica e cultural é uma constante na composição desses grupos de imigrantes. Houve, entretanto, acentuada predominância de elementos eslavos, principalmente poloneses e ucranianos.
A introdução dos imigrantes sírio-libaneses ocorreu a partir de 1890 e a dos japoneses a partir do início do século XX. Transcorridos 82 anos de colonização, desde a instalação da colônia alemã do Rio Negro, em 1829, até a fixação da colônia holandesa de Carambeí, em 1911, fundaram-se no Paraná mais de 100 núcleos de colonização, envolvendo em torno de 100 mil imigrantes.
Renovação no meio rural
A imigração no Paraná trouxe também elementos de renovação para o meio rural, com modificações na estrutura agrária. Altera-se o regime de propriedade para fixar o novo elemento. As terras das colônias são distribuídas para a agricultura em pequenos lotes de 25 a 30 hectares em torno da cidade, que tinha seu abastecimento garantido. O lote da família era trabalhado pelo colono, a mulher e os filhos e o produto seguia para os mercados próximos. Junto com as colônias desenvolveu-se a diversidade agrícola. Novas culturas foram introduzidas e outras reestabelecidas, contribuindo para o equilíbrio econômico das regiões.
Nestor Victor, em A terra do futuro (1913), diz que predominava na terra do polaco o centeio; a videira era o que mais se via na lavoura do italiano. Ao lado disto os polacos plantavam milho, feijão, batata inglesa, batata doce, ervilha, aveia, ervilhaca; os italianos, além da uva, cuidavam de outras frutas, em contraste com o polaco, que só abre exceção para o pêssego e a laranja”.
A tensão nas relações diplomáticas entre Brasil e Argentina determinará a localização de imigrantes no Paraná. Fundaram-se as colônias militares do Chapecó e Chopim, em 1882. Para ligar a região com o restante do país, o Império determinou a construção da ferrovia Curitiba-Paranaguá, logo estendida até Porto Amazonas, ponto inicial da navegação do Rio Iguaçu. Com o início da navegação de Porto Amazonas até União da Vitória, iniciou-se a fixação de imigrantes a partir de 1890. Nasceram então na margem direita do rio (a margem esquerda estava em disputa com Santa Catarina) as colônias de São Mateus (1890), Água Branca, Santa Bárbara, Palmira, Rio Claro (todas em 1891), Eufrosina, General Carneiro, Canta Galo (em 1892), Antonio Olinto (1895), Prudentópolis e Mallet (1896).
A revolução federalista paralisou em 1895 o serviço de imigração para o Paraná, retomado em 1907, quando eclodiu um surto batizado de “novas colônias federais”.
Nessa nova etapa de colonização alcançaram-se terras mais afastadas, já à altura do centro do estado. Nasceram então as colônias de Senador Corrêa, Ivaí (ambas em 1907), Irati (1908), Vera Guarani (1909) e Cruz Machado (1910). Poloneses, ucranianos e alemães foram os elementos humanos predominantes nessas novas colônias.
Após a Primeira Guerra Mundial, o japonês predominou nas várias correntes imigratórias dirigidas ao Paraná. Esses contingentes ocuparam e formaram núcleos importantes em Uraí, Assaí, Londrina, Bandeirantes, etc.
O litigio com a Argentina
Brasil e Argentina disputaram uma área de 30 621 km2 por mais de um século. O litígio arrastava-se desde a assinatura do Tratado de Santo Ildefonso (1777), que definiu as terras portuguesas e espanholas no sul do Brasil.
Pelo tratado, definiam-se como pontos fixos na fronteira os rios Uruguai (antigo Goyo-En), o rio Paraná e um trecho do Iguaçu. Entre os rios Iguaçu e Uruguai o tratado estabelecia que a fronteira passaria pelos rios Peperi-Guaçu ( afluente do Uruguai) e pelo Santo Antonio (afluente do Iguaçu).
As expedições de demarcação, entretanto, nunca chegaram a determinar esses pontos no território compreendido entre os rios Iguaçu e Uruguai.
Nenhum dos dois governos pretendia uma solução militar para a controvérsia e resolveram criar em 1885 uma comissão mista para estudar o assunto. Não houve entendimento nas negociações e optou-se pelo arbitramento.
O árbitro escolhido pelos dois países foi o presidente dos Estados Unidos, Grover S. Cleveland. O barão do Rio Branco incumbiu-se da defesa brasileira. No dia 6 de fevereiro de 1895 o presidente Cleveland anunciou sua decisão em favor do Brasil.
Como argumento principal, Rio Branco apresentou a posse efetiva da terra por brasileiros (uti possidetis). O censo de 1890 indicava 5.793 habitantes na região, dos quais 5.763 eram brasileiros e 30 estrangeiros. Entre estes, nenhum era cidadão argentino.
Consulta
EULÁLIO, Alexandre. A aventura brasileira de Blaise Cendrars. Edições Quiron, MEC/SP, 1978
IANNI, Octávio. Metamorfoses do escravo: apogeu e crise da escravatura no Brasil meridional. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1962.
IBGE. Anuário Estatístico do Brasil, Rio de Janeiro, 1943.
MARTINS, Romário. História do Paraná. 3. ed. Curitiba: Guaíra, s.d.
PADIS, Pedro Calil. Formação de uma economia periférica: o caso do Paraná. São Paulo: HUCITEC; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Paraná, 1981.
PRADO, Paulo. Retrato do Brasil. 7. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1972.
ROCHA POMBO. História do Brasil. Rio de Janeiro: J. Fonseca Saraiva Editor (Vol. I-III); Benjamim de Aguila Editor (Vol. IV-X), 1905-1917.
TAUNAY, Afonso. Pequena história do café no Brasil. Rio de Janeiro: Depto. Nacional do Café, 1945
WACHOWICZ, Ruy Christovam. História do Paraná. Curitiba: Gráfica Vicentina, 1988.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pela Comarca de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural, 1995.
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Evolução da Província
O Paraná viveu sob a condição de província durante 36 anos (de 1853 a 1889), teve 55 presidentes (em média, bem menos que um ano para cada administrador). O cargo era ocupado por políticos em trânsito para o parlamento ou ministérios.
O primeiro relatório do primeiro presidente provincial descrevia de maneira pouco animadora a situação da economia da nova província:
[...] presentemente é forçoso reconhecer, a erva-mate e a criação absorvem a atenção e atividade da grande maioria dos habitantes da província, aquela de ricos e pobres, esta dos homens abastados que possuem campos [...] No entanto, o mate é hoje o ramo preponderante na indústria da província. O estado atual desse ramo de riqueza está, entretanto, bem longe de ser lisonjeiro e o futuro ainda menos favorável se vislumbra [...] No outro ramo de trabalho de gosto geral, a criação [...] pode-se com segurança afirmar que [...] tudo anda entregue exclusivamente à provida natureza [...].
[...] As fábricas de mais importância na província ressentem-se do estado de atraso da indústria, a cujos produtos dão nova forma e valor adicional. São engenhos: de socar erva (em número de 90, pouco mais ou menos) onde o mate recebe o último benefício e preparação; de serrar madeira, em muito menor número; de descascar arroz, poucos; de fazer açúcar e aguardente, em pequena escala alguns.
A administração de Zacarias de Goes e Vasconcelos teve como principais realizações:
- a divisão da província em três comarcas: Curitiba, Paranaguá e Castro
- a criação de uma companhia policial para dar segurança à população
- o início da reconstrução da estrada da Graciosa, que ligará Curitiba a Antonina
- a instalação de várias escolas primárias
O Brasil terá profundas transformações políticas, sociais e econômicas na segunda metade do século XIX. Desde 1844 o comercio exterior do país encontrou novas possibilidades de expansão. A introdução do trabalho assalariado, principalmente nas fazendas de café em São Paulo, e a abolição gradativa do trabalho escravo desde 1850 modificavam e dinamizavam o comercio interno. Nessa conjuntura, a economia provincial do Paraná mudava seu caráter de subsistência para uma fase de comércio. A produção para exportação substituiu quase completamente a produção de subsistência da própria comunidade.
Dois negócios passaram a predominar: a exportação da erva-mate e o comércio de tropas muares, compradas no sul, invernadas no Paraná e vendidas na feira de Sorocaba. Esses negócios eram rendosos e fáceis: a erva-mate nativa não exige cultura e o comércio de animais, apesar de exigir capitais, proporcionava rendas com o simples arrendamento para os períodos de invernagem.
A maioria da população abandonava cada vez mais os trabalhos da agricultura, agravando o abastecimento. Em 1860, a população da província chegava a 80 mil habitantes e o abastecimento era feito principalmente pela importação de artigos do exterior e de outras províncias.
Erva-mate
Já em 1826 a exportação da erva-mate era a base de todo o comércio exterior da 5ª Comarca, através do Porto de Paranaguá. Entre 1852 e 1860, as exportações do produto multiplicaram em valor por quase duas vezes e meia. No entanto, a erva-mate produzida no Paraná desde há muito tempo encontrava as mais sérias dificuldades junto aos mercados compradores, por causa da qualidade inferior provocada pela fraude na produção, que consistia na mistura de outras plantas e gravetos.
A reconstrução da estrada da Graciosa, ligando mais facilmente Curitiba ao litoral, transfere para o planalto a quase totalidade dos engenhos beneficiadores que se localizavam no litoral. Isso facilitará muito o trabalho daqueles que se dedicavam apenas à coleta do produto, e que antes eram obrigados a levá-lo às costas até o litoral. Os ervatais silvestres estavam ao alcance da maior parte da população, sem distinção de sexo ou idade. Todos estavam aptos a trabalhar no seu primeiro e “fácil” processo. Eliminada a necessidade de transporte, um maior número de pessoas passaria a dedicar-se a essa atividade, incrementando a produção. O governo provincial baixou normas de produção e transporte, para melhorar a qualidade do produto.
A Guerra do Paraguai afastou o principal concorrente, deixando-nos os principais mercados consumidores – Argentina e Uruguai. Assim, de 1864, início do conflito, até 1870, no seu término, a exportação do produto paranaense duplicou em quantidade: passou de pouco mais de sete mil toneladas para além de quatorze mil. A erva-mate predominará como produto de exportação até as primeiras décadas do século XX.
Madeira
A economia paranaense de exportação não era constituída apenas da exploração da erva-mate. A madeira, especialmente o pinho, era o grande potencial para a exportação, devido às imensas reservas existentes. O Paraná sempre exportou madeira, especialmente as de qualidade nobre como o mogno. Mas a década de 1880 será para a atividade madeireira um período de euforia.
Com a expansão da economia nacional e o conseqüente surto de urbanização ocorridos no Rio de Janeiro e São Paulo, registrou-se um considerável aumento no consumo da madeira. A conclusão da ferrovia entre Curitiba e Paranaguá, em 1885, e a isenção de impostos provinciais e municipais e de taxas de barreiras sobre toda a madeira exportada determinou o fenômeno. No final do século, entre 1896 e 1899, existiam no Paraná, sobretudo ao longo da linha da Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande, 64 serrarias em produção.
Criação de gado
Um relatório apresentado em 1881 pelo presidente da Província alertava oficialmente para uma situação que vinha se agravando:
“Um ramo de comércio, que de alguns anos a esta parte decaiu consideravelmente – o de animais muares e cavalares que, trazidos do Rio Grande, eram levados à feira de Sorocaba [...] os números exprimem a oscilação e a decadência do comércio a que me refiro”.
O relatório apontava que isso se devia à diminuição da procura de animais nas províncias que deles se supriam, em razão do prolongamento das estradas de ferro que iam substituindo os serviços feitos outrora por bestas.
Face à conjuntura que se agravava já em 1860, fazendeiros e governo se preocupavam com o estado de abandono da criação de gado. Nesse ano, o Barão de Tibagi apontava: “[...] a ausência de raças que regenerassem a antiga, e o alto preço porque chega o sal ao fazendeiro, por falta de boas estradas, são as causas essenciais do estado pouco lisonjeiro desta indústria entre nós”.
A situação era diferente daquela que levou ao desenvolvimento da criação de gado nas fazendas do Paraná do século XVIII. O mercado interno naquela época tinha carência e oferecia altos preços aos produtores. Nas últimas décadas do século XIX, porém, aqueles mercados contavam com alternativas de abastecimento. As fazendas do Paraná, depois de limitarem a produção por longo tempo, teriam de se refazer para competir. Esse quadro trazia um rápido processo de empobrecimento para os fazendeiros.
Evolução da Província
O Paraná viveu sob a condição de província durante 36 anos (de 1853 a 1889), teve 55 presidentes (em média, bem menos que um ano para cada administrador). O cargo era ocupado por políticos em trânsito para o parlamento ou ministérios.
O primeiro relatório do primeiro presidente provincial descrevia de maneira pouco animadora a situação da economia da nova província:
[...] presentemente é forçoso reconhecer, a erva-mate e a criação absorvem a atenção e atividade da grande maioria dos habitantes da província, aquela de ricos e pobres, esta dos homens abastados que possuem campos [...] No entanto, o mate é hoje o ramo preponderante na indústria da província. O estado atual desse ramo de riqueza está, entretanto, bem longe de ser lisonjeiro e o futuro ainda menos favorável se vislumbra [...] No outro ramo de trabalho de gosto geral, a criação [...] pode-se com segurança afirmar que [...] tudo anda entregue exclusivamente à provida natureza [...].
[...] As fábricas de mais importância na província ressentem-se do estado de atraso da indústria, a cujos produtos dão nova forma e valor adicional. São engenhos: de socar erva (em número de 90, pouco mais ou menos) onde o mate recebe o último benefício e preparação; de serrar madeira, em muito menor número; de descascar arroz, poucos; de fazer açúcar e aguardente, em pequena escala alguns.
A administração de Zacarias de Goes e Vasconcelos teve como principais realizações:
- a divisão da província em três comarcas: Curitiba, Paranaguá e Castro
- a criação de uma companhia policial para dar segurança à população
- o início da reconstrução da estrada da Graciosa, que ligará Curitiba a Antonina
- a instalação de várias escolas primárias
O Brasil terá profundas transformações políticas, sociais e econômicas na segunda metade do século XIX. Desde 1844 o comercio exterior do país encontrou novas possibilidades de expansão. A introdução do trabalho assalariado, principalmente nas fazendas de café em São Paulo, e a abolição gradativa do trabalho escravo desde 1850 modificavam e dinamizavam o comercio interno. Nessa conjuntura, a economia provincial do Paraná mudava seu caráter de subsistência para uma fase de comércio. A produção para exportação substituiu quase completamente a produção de subsistência da própria comunidade.
Dois negócios passaram a predominar: a exportação da erva-mate e o comércio de tropas muares, compradas no sul, invernadas no Paraná e vendidas na feira de Sorocaba. Esses negócios eram rendosos e fáceis: a erva-mate nativa não exige cultura e o comércio de animais, apesar de exigir capitais, proporcionava rendas com o simples arrendamento para os períodos de invernagem.
A maioria da população abandonava cada vez mais os trabalhos da agricultura, agravando o abastecimento. Em 1860, a população da província chegava a 80 mil habitantes e o abastecimento era feito principalmente pela importação de artigos do exterior e de outras províncias.
Erva-mate
Já em 1826 a exportação da erva-mate era a base de todo o comércio exterior da 5ª Comarca, através do Porto de Paranaguá. Entre 1852 e 1860, as exportações do produto multiplicaram em valor por quase duas vezes e meia. No entanto, a erva-mate produzida no Paraná desde há muito tempo encontrava as mais sérias dificuldades junto aos mercados compradores, por causa da qualidade inferior provocada pela fraude na produção, que consistia na mistura de outras plantas e gravetos.
A reconstrução da estrada da Graciosa, ligando mais facilmente Curitiba ao litoral, transfere para o planalto a quase totalidade dos engenhos beneficiadores que se localizavam no litoral. Isso facilitará muito o trabalho daqueles que se dedicavam apenas à coleta do produto, e que antes eram obrigados a levá-lo às costas até o litoral. Os ervatais silvestres estavam ao alcance da maior parte da população, sem distinção de sexo ou idade. Todos estavam aptos a trabalhar no seu primeiro e “fácil” processo. Eliminada a necessidade de transporte, um maior número de pessoas passaria a dedicar-se a essa atividade, incrementando a produção. O governo provincial baixou normas de produção e transporte, para melhorar a qualidade do produto.
A Guerra do Paraguai afastou o principal concorrente, deixando-nos os principais mercados consumidores – Argentina e Uruguai. Assim, de 1864, início do conflito, até 1870, no seu término, a exportação do produto paranaense duplicou em quantidade: passou de pouco mais de sete mil toneladas para além de quatorze mil. A erva-mate predominará como produto de exportação até as primeiras décadas do século XX.
Madeira
A economia paranaense de exportação não era constituída apenas da exploração da erva-mate. A madeira, especialmente o pinho, era o grande potencial para a exportação, devido às imensas reservas existentes. O Paraná sempre exportou madeira, especialmente as de qualidade nobre como o mogno. Mas a década de 1880 será para a atividade madeireira um período de euforia.
Com a expansão da economia nacional e o conseqüente surto de urbanização ocorridos no Rio de Janeiro e São Paulo, registrou-se um considerável aumento no consumo da madeira. A conclusão da ferrovia entre Curitiba e Paranaguá, em 1885, e a isenção de impostos provinciais e municipais e de taxas de barreiras sobre toda a madeira exportada determinou o fenômeno. No final do século, entre 1896 e 1899, existiam no Paraná, sobretudo ao longo da linha da Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande, 64 serrarias em produção.
Criação de gado
Um relatório apresentado em 1881 pelo presidente da Província alertava oficialmente para uma situação que vinha se agravando:
“Um ramo de comércio, que de alguns anos a esta parte decaiu consideravelmente – o de animais muares e cavalares que, trazidos do Rio Grande, eram levados à feira de Sorocaba [...] os números exprimem a oscilação e a decadência do comércio a que me refiro”.
O relatório apontava que isso se devia à diminuição da procura de animais nas províncias que deles se supriam, em razão do prolongamento das estradas de ferro que iam substituindo os serviços feitos outrora por bestas.
Face à conjuntura que se agravava já em 1860, fazendeiros e governo se preocupavam com o estado de abandono da criação de gado. Nesse ano, o Barão de Tibagi apontava: “[...] a ausência de raças que regenerassem a antiga, e o alto preço porque chega o sal ao fazendeiro, por falta de boas estradas, são as causas essenciais do estado pouco lisonjeiro desta indústria entre nós”.
A situação era diferente daquela que levou ao desenvolvimento da criação de gado nas fazendas do Paraná do século XVIII. O mercado interno naquela época tinha carência e oferecia altos preços aos produtores. Nas últimas décadas do século XIX, porém, aqueles mercados contavam com alternativas de abastecimento. As fazendas do Paraná, depois de limitarem a produção por longo tempo, teriam de se refazer para competir. Esse quadro trazia um rápido processo de empobrecimento para os fazendeiros.
7
1853 – A Criação da Província do Paraná
Não houve participação da população nem sua maior mobilização no processo de emancipação da Quinta Comarca. Tudo se resolveu nos altos escalões imperiais. A inexpressiva participação das próprias elites regionais no processo levou as autoridades imperiais a darem o nome à nova província. Foi inspirado no maior rio da região: o Paraná.
Cronologia da emancipação
1811 – A comarca de Paranaguá envia ao príncipe D. João uma representação a favor de um governo próprio.
1821 – Autoridades e habitantes de Paranaguá iniciam um movimento denominado Conjura Separatista e o tornam público durante o juramento de fidelidade às bases da constituição do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e às autoridades de São Paulo. As autoridades temem a existência de um movimento subversivo de grandes proporções e instalam inquérito desse movimento. Algumas autoridades locais sofrem perseguição e são obrigadas a abandonar a comarca. A “Conjura Separatista” fracassa.
1835 – Evolui a Revolução Autonomista no Rio Grande do Sul, com os liberais levantando armas contra os imperiais. Temeroso de que os liberais de Minas e São Paulo se aliassem aos farrapos gaúchos, o governo imperial tenta aproximar os curitibanos. Promete a elevação da comarca à categoria de província. Terminada a revolução, com vitória dos legalistas, o governador de São Paulo, Barão de Monte Alegre, cumpre a promessa e solicita oficialmente ao governo imperial a separação. Projeto nesse sentido é apresentado na Câmara, por iniciativa do deputado paulista Carneiro de Campos.
1843 – O governo imperial solicita à comarca todas as informações necessárias e o projeto começa a ser discutido no legislativo. A luta parlamentar, a discussão e aprovação do projeto consomem 10 anos.
1850 – O assunto volta ao debate, agora no Senado. Fora apresentado um projeto que criava a província do Amazonas. O senador Batista de Oliveira, em emenda ao projeto, propõe que a emancipação se estenda também à comarca de Curitiba. Após debates acalorados, em que a maioria dos representantes baianos e mineiros se mostra favorável aos interesses paranaenses, e os paulistas contrários, o projeto acaba se dividindo em dois: um para a comarca do Alto Amazonas e o outro para Curitiba.
1853 – O projeto é finalmente aprovado a dois de agosto, e o Paraná torna-se a mais jovem província do Império. A instalação solene se realiza a 19 de dezembro, ocasião em que o primeiro presidente, o baiano Zacarias de Goes e Vasconcelos, toma posse do cargo.
Lei nº 704, sancionada pelo Imperador D. Pedro II
em 29 de agosto de 1853, criando a província do Paraná
Art. 1º – A comarca de Curitiba, na província de São Paulo, fica elevada à categoria de província, com a denominação de província do Paraná. Sua extensão e limite serão os mesmos da referida comarca.
Art. 2º – A nova província terá como capital a cidade de Curitiba, enquanto a Assembléia respectiva não decretar o contrário.
Art. 3º – A província do Paraná dará um senador e um deputado à Assembléia Geral; sua assembléia provincial constará de 20 membros.
Art. 4º – O governo fica autorizado a criar na mesma província as estações fiscais indispensáveis para a arrecadação e administração das rendas gerais, submetendo depois o que houver determinado ao conhecimento da Assembléia Geral, para definitiva aprovação.
Dada no Palácio do Rio de Janeiro, aos vinte e nove de agosto de mil, oitocentos e cinqüenta e três, trigésimo segundo da Independência e do Império.
Curitiba seria finalmente confirmada como capital ainda no governo de Zacarias de Goes e Vasconcelos, apesar das pretensões de Paranaguá e Guarapuava para sediar a província.
A população
Curitiba era uma pequena cidade com 6.791 habitantes em 1854, quase uma simples vila, sem serviços públicos nem edifícios próprios para a nova administração. Na Viagem pelo sul do Brasil, publicado em 1858, Robert Avé-Lallemant descrevia:
“Naturalmente nela nada se encontra de grande ou grandioso [...] ao lado do desmazelo, dos cantos sujos e praças desordenadas e das coisas em ruínas, próprios [...] da antiga e atrasada Curitiba [...]. Desde a chegada do presidente e do pessoal administrativo, Curitiba tem seu palácio. Naturalmente é um simples rés-do-chão e tem a aparência despretensiosa, modesta, mas é bonito e asseado”.
Outras construções já despontavam, como a Câmara Municipal, o Tesouro, o quartel da força militar, a cadeia. Comarca desde 1812, cidade em 1842, sede da província em 1853, era ainda preciso fazer de Curitiba uma capital.
A população da nova província somava 62.258 habitantes, assim distribuídos:
Homens – 31.219
Mulheres – 31.039
Idades
Até 21 anos – 34.895
Até 40 anos – 17.628
Mais de 40 anos – 9.735
Estado civil
Solteiros – 43.007
Casados – 16.140
Viúvos – 3.111
Cor
Brancos – 33.633
Mulatos – 13.968
Pretos – 9.251
Escravos – 10.189
1853 – A Criação da Província do Paraná
Não houve participação da população nem sua maior mobilização no processo de emancipação da Quinta Comarca. Tudo se resolveu nos altos escalões imperiais. A inexpressiva participação das próprias elites regionais no processo levou as autoridades imperiais a darem o nome à nova província. Foi inspirado no maior rio da região: o Paraná.
Cronologia da emancipação
1811 – A comarca de Paranaguá envia ao príncipe D. João uma representação a favor de um governo próprio.
1821 – Autoridades e habitantes de Paranaguá iniciam um movimento denominado Conjura Separatista e o tornam público durante o juramento de fidelidade às bases da constituição do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e às autoridades de São Paulo. As autoridades temem a existência de um movimento subversivo de grandes proporções e instalam inquérito desse movimento. Algumas autoridades locais sofrem perseguição e são obrigadas a abandonar a comarca. A “Conjura Separatista” fracassa.
1835 – Evolui a Revolução Autonomista no Rio Grande do Sul, com os liberais levantando armas contra os imperiais. Temeroso de que os liberais de Minas e São Paulo se aliassem aos farrapos gaúchos, o governo imperial tenta aproximar os curitibanos. Promete a elevação da comarca à categoria de província. Terminada a revolução, com vitória dos legalistas, o governador de São Paulo, Barão de Monte Alegre, cumpre a promessa e solicita oficialmente ao governo imperial a separação. Projeto nesse sentido é apresentado na Câmara, por iniciativa do deputado paulista Carneiro de Campos.
1843 – O governo imperial solicita à comarca todas as informações necessárias e o projeto começa a ser discutido no legislativo. A luta parlamentar, a discussão e aprovação do projeto consomem 10 anos.
1850 – O assunto volta ao debate, agora no Senado. Fora apresentado um projeto que criava a província do Amazonas. O senador Batista de Oliveira, em emenda ao projeto, propõe que a emancipação se estenda também à comarca de Curitiba. Após debates acalorados, em que a maioria dos representantes baianos e mineiros se mostra favorável aos interesses paranaenses, e os paulistas contrários, o projeto acaba se dividindo em dois: um para a comarca do Alto Amazonas e o outro para Curitiba.
1853 – O projeto é finalmente aprovado a dois de agosto, e o Paraná torna-se a mais jovem província do Império. A instalação solene se realiza a 19 de dezembro, ocasião em que o primeiro presidente, o baiano Zacarias de Goes e Vasconcelos, toma posse do cargo.
Lei nº 704, sancionada pelo Imperador D. Pedro II
em 29 de agosto de 1853, criando a província do Paraná
Art. 1º – A comarca de Curitiba, na província de São Paulo, fica elevada à categoria de província, com a denominação de província do Paraná. Sua extensão e limite serão os mesmos da referida comarca.
Art. 2º – A nova província terá como capital a cidade de Curitiba, enquanto a Assembléia respectiva não decretar o contrário.
Art. 3º – A província do Paraná dará um senador e um deputado à Assembléia Geral; sua assembléia provincial constará de 20 membros.
Art. 4º – O governo fica autorizado a criar na mesma província as estações fiscais indispensáveis para a arrecadação e administração das rendas gerais, submetendo depois o que houver determinado ao conhecimento da Assembléia Geral, para definitiva aprovação.
Dada no Palácio do Rio de Janeiro, aos vinte e nove de agosto de mil, oitocentos e cinqüenta e três, trigésimo segundo da Independência e do Império.
Curitiba seria finalmente confirmada como capital ainda no governo de Zacarias de Goes e Vasconcelos, apesar das pretensões de Paranaguá e Guarapuava para sediar a província.
A população
Curitiba era uma pequena cidade com 6.791 habitantes em 1854, quase uma simples vila, sem serviços públicos nem edifícios próprios para a nova administração. Na Viagem pelo sul do Brasil, publicado em 1858, Robert Avé-Lallemant descrevia:
“Naturalmente nela nada se encontra de grande ou grandioso [...] ao lado do desmazelo, dos cantos sujos e praças desordenadas e das coisas em ruínas, próprios [...] da antiga e atrasada Curitiba [...]. Desde a chegada do presidente e do pessoal administrativo, Curitiba tem seu palácio. Naturalmente é um simples rés-do-chão e tem a aparência despretensiosa, modesta, mas é bonito e asseado”.
Outras construções já despontavam, como a Câmara Municipal, o Tesouro, o quartel da força militar, a cadeia. Comarca desde 1812, cidade em 1842, sede da província em 1853, era ainda preciso fazer de Curitiba uma capital.
A população da nova província somava 62.258 habitantes, assim distribuídos:
Homens – 31.219
Mulheres – 31.039
Idades
Até 21 anos – 34.895
Até 40 anos – 17.628
Mais de 40 anos – 9.735
Estado civil
Solteiros – 43.007
Casados – 16.140
Viúvos – 3.111
Cor
Brancos – 33.633
Mulatos – 13.968
Pretos – 9.251
Escravos – 10.189
6
O tropeirismo
A história do Paraná confunde-se com uma história de caminhos. As primeiras vias de comunicação foram as trilhas abertas e mantidas pelos habitantes originais, os indígenas. Essas mesmas vias foram utilizadas pelos bandeirantes paulistas para destruir as reduções jesuíticas espanholas e aprisionar os índios.
A dimensão desses caminhos primitivos é extraordinária. Basta citar a trilha transcontinental de Peabiru, que ligava o Pacífico desde o Peru até São Vicente, no Atlântico.
Serão esses caminhos históricos que permitirão a ocupação de parte considerável do território paranaense entre os séculos XVIII e XIX, através do chamado “ciclo das tropas”, que principia em 1731 com a retificação da rota Viamão-Sorocaba.
A busca do ouro concretizou a ocupação do Norte Velho no sentido leste-oeste. Mas, com o Ciclo das Tropas se estabelecerá um outro desbravamento, no sentido norte-sul e sul-norte, levado por razões diferentes. Durante esse período formaram-se as fazendas de criação de gado e invernagem de muares por todas as regiões dos campos naturais do Paraná, desde Curitiba e os Campos Gerais aos Campos de Guarapuava e Palmas até as fronteiras do Rio Grande do Sul e Argentina.
Os protagonistas da consolidação das vias de penetração a partir do século XVIII foram os tropeiros. O contato permanente mantido por eles entre Sorocaba, os Campos Gerais e o Rio Grande do Sul conseguiu integrar os gaúchos ao resto do Brasil, impedindo sua atração pelos espanhóis.
O dono de tropas no Paraná não era um homem pobre. Para formar a tropa eram necessários capitais razoáveis e grande parte dos tropeiros era constituída de homens abastados e eminentes. Os barões de Tibagi (José Caetano de Oliveira) e o de Campos Gerais (Cel. David dos Santos Pacheco), por exemplo, foram proprietários de tropas.
Além de promover o intercâmbio das mercadorias, o tropeiro fazia por sua conta o serviço de correio, que praticamente inexistia no interior. A tropa trazia notícias dos lugares mais distantes e o tropeiro era intermediário de muitos negócios.
A tropa era formada basicamente pelo burro, o animal mais resistente para as longas jornadas e capaz de levar grande quantidade de peso.
O Peabiru
Os jesuítas do Guairá chamavam esse caminho de São Tomé. O nome de origem tupi Peabiru designava a vereda transcontinental que ligava o Peru, no Oceano Pacífico, com São Vicente, no Oceano Atlântico.
O Peabiru começava a partir de São Vicente ou de Cananéia, no litoral paulista, penetrava pela Escarpa do Mar e seguia pelo vale do rio Ribeira do Iguape. Transpunha os Campos Gerais, vencendo os rios Tibagi, Ivaí e pelo vale do Piquiri atingia a região das Sete Quedas no rio Paraná. Cortava esse rio, prosseguia em território paraguaio e, vencendo a Cordilheira dos Andes, terminava no litoral peruano. Tinha inúmeras ramificações para o norte e ao sul.
Os primeiros colonizadores europeus usaram esse caminho com freqüência. Por ele Pero Álvares Nuñes Cabeza de Vaca saiu com 250 homens do litoral catarinense, subiu pelo rio Itapocu, ultrapassou a Escarpa do Mar, venceu os campos de Tindiqüera (Araucária) e foi encontrar a linha principal do Peabiru; continuou para o oeste em direção ao Paraguai. A façanha só teria sido possível se Cabeza de Vaca tivesse conhecimento do caminho usando índios como guias.
O artilheiro alemão Hans Staden percorreu essa trilha na sua viagem ao Paraguai conforme relata no seu livro publicado em 1557.
Caminho da Graciosa
Era uma picada pela qual os índios do planalto desciam ao litoral. Os faiscadores de ouro passaram a freqüentá-la ao subirem pela Escarpa em direção ao Planalto. Em 1743 cogitou-se da construção de uma estrada mais larga e segura para o trânsito de tropas. O governador da Capitania de São Paulo, Antonio Franca e Horta, impôs às populações de Antonina e Morretes contribuições em dinheiro e trabalho. Os moradores protestaram, pois sentiam-se prejudicados com o traçado da estrada que passava longe de Morretes, então parada obrigatória das tropas, privilegiando Antonina. Esta levava vantagem como porto marítimo. Morretes era porto fluvial. A navegação pelo rio Nhundiaquara servia-se de canoas até Paranaguá. A população de Paranaguá preferia que se usasse o porto de Morretes porque as mercadorias que desciam do planalto até esse porto eram exportadas por Paranaguá. Já Antonina poderia exportar direto, sendo porto marítimo. Morretes e Paranaguá aliaram-se na chamada “Guerra dos Portos” contra Antonina, o que atrasou a abertura de uma estrada satisfatória para o litoral.
Apesar de toda a controvérsia, o caminho foi aberto em 1808. Saint-Hilaire o percorreu em 1820 e diz ter gasto oito horas para fazer três léguas devido às dificuldades na travessia. Ainda em 1853 o Paraná não dispunha de uma rodovia ligando a região do Planalto com o litoral. Depois de vários estudos, o governo resolveu abrir uma rodovia para o litoral, usando em sua maior parte o antigo caminho da Graciosa. A obra foi concluída em 1872 e considerada a estrada mais importante da província na época.
Caminho de Itupava
Era uma picada aberta na mata ligando o primeiro planalto de Curitiba ao litoral. Segundo a lenda, teria sido descoberta por caçadores em perseguição a uma anta. Inicialmente, como o caminho da Graciosa, só dava trânsito a pedestres. Os tropeiros preferiam esse caminho ao da Graciosa porque era mais curto: a travessia da Escarpa a partir de Curitiba levava dois dias enquanto que pela Graciosa gastava-se o dobro de tempo.
Caminho do Arraial ou de Cubatão
Foi aberto pelos faiscadores de ouro estabelecidos no Arraial Grande, atual município de São José dos Pinhais. Dos três caminhos que levavam ao litoral, era o que apresentava maiores inconvenientes. Atravessava a Escarpa em trechos estreitos e passava pelas margens de dois ribeirões que dificultavam a jornada durante as freqüentes chuvas. Era usado também pelos habitantes da Vila do Príncipe, chamada depois cidade da Lapa.
Estrada da Mata ou Caminho de Viamão
Além dos caminhos ligando litoral e planalto havia outras trilhas, a maior parte delas resultante do comércio de animais. A primeira dessas ligações é a chamada “estrada do gado”, ou “caminho do sul”.
O traçado inicial dessa estrada, determinado pela presença dos campos, sofreu poucas alterações. Em 1773 os pontos de referência eram Sorocaba, Itapetininga, Jaguariaíva, Castro, Carambeí, rio Iguaçu, Curralinho, Curitibanos, Lages, rio Pelotas, rio das Camisas, Viamão.
Esse caminho ganhou importância com a descoberta de ouro em Minas Gerais. O território paranaense ficava no trajeto utilizado para o transporte do gado e de muares de Viamão, no Rio Grande do Sul, à feira de Sorocaba.
Muitas povoações se formaram nesse trajeto, fornecendo pousadas, ferreiros, arreadores. Essas populações prestavam toda a assistência aos tropeiros. Essas povoações, hoje importantes cidades, eram separadas por uma distância que correspondia a um dia de viagem do tropeiro.
Curitiba tirou enorme proveito dessa rota, pois situava-se no entroncamento com Itupava e Graciosa, que levavam ao litoral. Por essa posição estratégica, Curitiba firmou-se como cidade e desenvolveu sua economia, superando Paranaguá e ganhando habilitação para tornar-se a capital da futura Província do Paraná.
Contrato das Passagens do Cubatão
O caminho de Itupava acabava nas margens do rio Nhundiaquara, na localidade chamada Porto de Cima. Era necessário então o transporte fluvial para Morretes e Paranaguá. Nem sempre havia número suficiente de canoas para o transporte das mercadorias e por isso foi necessário instituir um serviço permanente de embarcações, que recebeu o nome de Contrato das Passagens do Cubatão.
O tropeirismo
A história do Paraná confunde-se com uma história de caminhos. As primeiras vias de comunicação foram as trilhas abertas e mantidas pelos habitantes originais, os indígenas. Essas mesmas vias foram utilizadas pelos bandeirantes paulistas para destruir as reduções jesuíticas espanholas e aprisionar os índios.
A dimensão desses caminhos primitivos é extraordinária. Basta citar a trilha transcontinental de Peabiru, que ligava o Pacífico desde o Peru até São Vicente, no Atlântico.
Serão esses caminhos históricos que permitirão a ocupação de parte considerável do território paranaense entre os séculos XVIII e XIX, através do chamado “ciclo das tropas”, que principia em 1731 com a retificação da rota Viamão-Sorocaba.
A busca do ouro concretizou a ocupação do Norte Velho no sentido leste-oeste. Mas, com o Ciclo das Tropas se estabelecerá um outro desbravamento, no sentido norte-sul e sul-norte, levado por razões diferentes. Durante esse período formaram-se as fazendas de criação de gado e invernagem de muares por todas as regiões dos campos naturais do Paraná, desde Curitiba e os Campos Gerais aos Campos de Guarapuava e Palmas até as fronteiras do Rio Grande do Sul e Argentina.
Os protagonistas da consolidação das vias de penetração a partir do século XVIII foram os tropeiros. O contato permanente mantido por eles entre Sorocaba, os Campos Gerais e o Rio Grande do Sul conseguiu integrar os gaúchos ao resto do Brasil, impedindo sua atração pelos espanhóis.
O dono de tropas no Paraná não era um homem pobre. Para formar a tropa eram necessários capitais razoáveis e grande parte dos tropeiros era constituída de homens abastados e eminentes. Os barões de Tibagi (José Caetano de Oliveira) e o de Campos Gerais (Cel. David dos Santos Pacheco), por exemplo, foram proprietários de tropas.
Além de promover o intercâmbio das mercadorias, o tropeiro fazia por sua conta o serviço de correio, que praticamente inexistia no interior. A tropa trazia notícias dos lugares mais distantes e o tropeiro era intermediário de muitos negócios.
A tropa era formada basicamente pelo burro, o animal mais resistente para as longas jornadas e capaz de levar grande quantidade de peso.
O Peabiru
Os jesuítas do Guairá chamavam esse caminho de São Tomé. O nome de origem tupi Peabiru designava a vereda transcontinental que ligava o Peru, no Oceano Pacífico, com São Vicente, no Oceano Atlântico.
O Peabiru começava a partir de São Vicente ou de Cananéia, no litoral paulista, penetrava pela Escarpa do Mar e seguia pelo vale do rio Ribeira do Iguape. Transpunha os Campos Gerais, vencendo os rios Tibagi, Ivaí e pelo vale do Piquiri atingia a região das Sete Quedas no rio Paraná. Cortava esse rio, prosseguia em território paraguaio e, vencendo a Cordilheira dos Andes, terminava no litoral peruano. Tinha inúmeras ramificações para o norte e ao sul.
Os primeiros colonizadores europeus usaram esse caminho com freqüência. Por ele Pero Álvares Nuñes Cabeza de Vaca saiu com 250 homens do litoral catarinense, subiu pelo rio Itapocu, ultrapassou a Escarpa do Mar, venceu os campos de Tindiqüera (Araucária) e foi encontrar a linha principal do Peabiru; continuou para o oeste em direção ao Paraguai. A façanha só teria sido possível se Cabeza de Vaca tivesse conhecimento do caminho usando índios como guias.
O artilheiro alemão Hans Staden percorreu essa trilha na sua viagem ao Paraguai conforme relata no seu livro publicado em 1557.
Caminho da Graciosa
Era uma picada pela qual os índios do planalto desciam ao litoral. Os faiscadores de ouro passaram a freqüentá-la ao subirem pela Escarpa em direção ao Planalto. Em 1743 cogitou-se da construção de uma estrada mais larga e segura para o trânsito de tropas. O governador da Capitania de São Paulo, Antonio Franca e Horta, impôs às populações de Antonina e Morretes contribuições em dinheiro e trabalho. Os moradores protestaram, pois sentiam-se prejudicados com o traçado da estrada que passava longe de Morretes, então parada obrigatória das tropas, privilegiando Antonina. Esta levava vantagem como porto marítimo. Morretes era porto fluvial. A navegação pelo rio Nhundiaquara servia-se de canoas até Paranaguá. A população de Paranaguá preferia que se usasse o porto de Morretes porque as mercadorias que desciam do planalto até esse porto eram exportadas por Paranaguá. Já Antonina poderia exportar direto, sendo porto marítimo. Morretes e Paranaguá aliaram-se na chamada “Guerra dos Portos” contra Antonina, o que atrasou a abertura de uma estrada satisfatória para o litoral.
Apesar de toda a controvérsia, o caminho foi aberto em 1808. Saint-Hilaire o percorreu em 1820 e diz ter gasto oito horas para fazer três léguas devido às dificuldades na travessia. Ainda em 1853 o Paraná não dispunha de uma rodovia ligando a região do Planalto com o litoral. Depois de vários estudos, o governo resolveu abrir uma rodovia para o litoral, usando em sua maior parte o antigo caminho da Graciosa. A obra foi concluída em 1872 e considerada a estrada mais importante da província na época.
Caminho de Itupava
Era uma picada aberta na mata ligando o primeiro planalto de Curitiba ao litoral. Segundo a lenda, teria sido descoberta por caçadores em perseguição a uma anta. Inicialmente, como o caminho da Graciosa, só dava trânsito a pedestres. Os tropeiros preferiam esse caminho ao da Graciosa porque era mais curto: a travessia da Escarpa a partir de Curitiba levava dois dias enquanto que pela Graciosa gastava-se o dobro de tempo.
Caminho do Arraial ou de Cubatão
Foi aberto pelos faiscadores de ouro estabelecidos no Arraial Grande, atual município de São José dos Pinhais. Dos três caminhos que levavam ao litoral, era o que apresentava maiores inconvenientes. Atravessava a Escarpa em trechos estreitos e passava pelas margens de dois ribeirões que dificultavam a jornada durante as freqüentes chuvas. Era usado também pelos habitantes da Vila do Príncipe, chamada depois cidade da Lapa.
Estrada da Mata ou Caminho de Viamão
Além dos caminhos ligando litoral e planalto havia outras trilhas, a maior parte delas resultante do comércio de animais. A primeira dessas ligações é a chamada “estrada do gado”, ou “caminho do sul”.
O traçado inicial dessa estrada, determinado pela presença dos campos, sofreu poucas alterações. Em 1773 os pontos de referência eram Sorocaba, Itapetininga, Jaguariaíva, Castro, Carambeí, rio Iguaçu, Curralinho, Curitibanos, Lages, rio Pelotas, rio das Camisas, Viamão.
Esse caminho ganhou importância com a descoberta de ouro em Minas Gerais. O território paranaense ficava no trajeto utilizado para o transporte do gado e de muares de Viamão, no Rio Grande do Sul, à feira de Sorocaba.
Muitas povoações se formaram nesse trajeto, fornecendo pousadas, ferreiros, arreadores. Essas populações prestavam toda a assistência aos tropeiros. Essas povoações, hoje importantes cidades, eram separadas por uma distância que correspondia a um dia de viagem do tropeiro.
Curitiba tirou enorme proveito dessa rota, pois situava-se no entroncamento com Itupava e Graciosa, que levavam ao litoral. Por essa posição estratégica, Curitiba firmou-se como cidade e desenvolveu sua economia, superando Paranaguá e ganhando habilitação para tornar-se a capital da futura Província do Paraná.
Contrato das Passagens do Cubatão
O caminho de Itupava acabava nas margens do rio Nhundiaquara, na localidade chamada Porto de Cima. Era necessário então o transporte fluvial para Morretes e Paranaguá. Nem sempre havia número suficiente de canoas para o transporte das mercadorias e por isso foi necessário instituir um serviço permanente de embarcações, que recebeu o nome de Contrato das Passagens do Cubatão.
5
A ocupação dos Campos Gerais e dos Campos de Guarapuava
Quando se descobriu o ouro em Minas Gerais, toda a região passou a dedicar-se quase exclusivamente à mineração. Levas e levas de gente chegava cada vez mais trazendo o sonho da riqueza. Essa população enorme precisava comer, vestir-se, beber; e dinheiro não faltava – o ouro podia comprar tudo.
O gado do nordeste veio pelo vale do São Francisco e as lavouras do Rio de Janeiro prosperaram. Os gaúchos também tinham o que vender: nas estâncias sulinas havia cavalos e muares. Trazidos até São Paulo, iriam servir para o transporte dos produtos enviados para as minas; o gado de corte poderia abastecer de carne a zona do garimpo e a população do Rio de Janeiro.
Partindo das terras do Rio Grande do Sul, cortando Santa Catarina, as boiadas eram guiadas pelo rio Negro, próximo às nascentes do Iguaçu, distantes uns 150 quilômetros do litoral.
A região – os Campos Gerais –, um planalto com altitude em geral superior a 800 metros, formava um corredor natural desde o sul até São Paulo, entre duas serras: a serra do Mar e a serra Geral (ou da Boa Esperança), situada mais a oeste e num nível mais baixo de terreno.
Assim esse corredor do gado – os Campos Gerais – aparecia como um dos degraus de uma escada natural que descia no sentido leste-oeste. A topografia era suave e a maior parte do terreno se cobria de vegetação herbácea, apenas entrecortada de capões de mato, de onde os pinheiros se estendiam para o céu.
As grandes e freqüentes viagens começaram a deixar suas marcas. Rota batida, aqui um abrigo, construído e deixado para ser usado depois; ali uma cerca marcando um pouso seguro para o gado. E o que era pausa de uma só noite foi se tornando uma parada mais prolongada. Se o gado pudesse descansar mais, chegaria em melhores condições a Sorocaba e alcançaria melhores preços na grande feira que atraía compradores de todos os pontos de mineração. Surgiram invernadas para engorda do gado, alguns resolveram estabelecer estâncias, cuidar da criação ali mesmo. Grupos de pequenas e espaçadas casas apareciam à beira do caminho, formavam um povoado, e iam ganhando nomes: Castro, Ponta Grossa, Lapa, Palmeira.
O gado introduzido no planalto curitibano encontrou ambiente favorável, alcançou os Campos Gerais no século XVIII e os Campos de Guarapuava no século XIX, conquistado aos índios por meio da “guerra justa”, de que trataremos adiante.
Com a abertura das fazendas a criação passou a ser a principal atividade da população que não encontrava mercado para a sua produção agrícola. Ao percorrer os Campos Gerais, Saint-Hilaire anotou: “Não se cuida de outra coisa senão da criação de gado [...] Os homens estão sempre a cavalo e andam quase sempre a galope [...] Os meninos aprendem desde a mais tenra idade a atirar o laço”.
A criação do gado abriu caminhos e povoou o sertão. Nasceram as grandes fazendas e os pequenos sítios ao longo dos caminhos. Para conseguir uma propriedade nos Campos Gerais, o interessado escolhia uma paragem e soltava algumas cabeças de gado. Tempos depois requeria a concessão da sesmaria. As propriedades variavam entre quatro e oito mil alqueires paulistas. No período 1725-1744 surgiram cerca de 90 sesmeiros. O número de sesmarias era, porém, bem maior, pois muitos tinham mais de uma.
Os sítios eram pequenas propriedades exploradas e ocupadas verdadeiramente por seus posseiros. Ficavam próximos dos povoados e nas margens da estrada das tropas. A maioria dos sitiantes não tinha escravos, cuidavam de algumas vacas, cavalos, muares e pequenos animais, plantavam feijão e milho e abasteciam as tropas que passavam pela região.
Os Campos Gerais eram em meados do século XVIII uma frente de ocupação e exploração do caminho das tropas. Lentamente, as sesmarias expandiram-se na direção oeste e norte, ocupando os campos de Piraí, Jaguariaíva e Tibagi. Depois da independência do Brasil, em 1822, e especialmente depois da fundação da Província do Paraná, em 1853, os fazendeiros dos Campos Gerais tornaram-se a elite econômica e política do Paraná.
Guarapuava
A ocupação dos Campos de Guarapuava foi um processo mais de uma vez iniciado e malsucedido desde a sua “descoberta” em 1770. Nada menos de cinco expedições foram organizadas e levadas ao ocidente, com o objetivo de descobrir os Campos de Guarapuava, os Campos de Palmas e outras regiões ainda em poder dos indígenas.
Esses esforços eram fruto do temor do governo português de uma ocupação espanhola efetiva. Várias penetrações foram feitas pelos vales dos grandes rios, como o Iguatemi, o Tibagi, o Ivaí e outros. Entretanto, desde a descoberta e a ocupação efetiva dos Campos de Guarapuava passaram-se cerca de 40 anos. Só com a vinda da família real ao Brasil é que a ocupação se concretizou. Relata Romário Martins:
“A posse efetiva dos Campos de Guarapuava, cuja denominação abrangia os vastos territórios de Guaíra de onde os paulistas haviam, no século XVII, expulsado as organizações civis e religiosas dos espanhóis [...] novamente entrou nas cogitações portuguesas com a vinda de D. João, regente do Reino, para o Rio de Janeiro.
Embora o Tratado de Santo Ildefonso tivesse resolvido o traço das fronteiras entre Portugal e Espanha quanto aos seus domínios americanos, ainda era, contudo, motivo de cogitações a necessidade de ocupar territórios conquistados pelos paulistas além da Linha Meridiana que entre as duas coroas dividia os respectivos direitos em terras do Novo Mundo”.
Em Carta Régia de 1808, o príncipe regente determinava ao capitão-general de São Paulo “que fosse feita guerra aos índios que impediam o povoamento e dadas sesmarias nos Campos de Guarapuava e ao longo das vias de comunicação com esses campos, a partir de Curitiba, tento em vista o quase total abandono em que se achavam os Campos Gerais de Curitiba e os de Guarapuava”.
Para cumprir a determinação criou-se a Junta da Real Expedição e Conquista de Guarapuava. A 27 de junho de 1810 levantou-se no ponto onde se situava a Fazenda Trindade, uma atalaia (torre de vigia). As primeiras construções se concluíram em 1812 e iniciou-se o aldeamento dos índios.
Por alvará Régio de 11 de novembro de 1819 criou-se a Freguesia de Guarapuava de Nossa Senhora de Belém. Em 1852 a povoação foi elevada à categoria de Vila. A Vila recebeu foros de cidade em 1871.
A expedição militar de 1810 fora apenas a vanguarda da conquista. Os grandes contingentes estavam na multidão de fazendeiros dos Campos Gerais em busca de terras novas e campo limpo para ampliar as criações de gado. Moradores pobres dos Campos Gerais instalaram-se em Guarapuava e receberam porções de terra em torno da vila. Os grandes fazendeiros conseguiram mais, e levaram grande número de animais.
Por volta de 1836, Guarapuava se encontrava “muito opulenta em riquezas e população, habitada por abastados fazendeiros e negociantes, o campo todo povoado e coberto de animais de criar, não havendo mais lugar para se estenderem as fazendas e menos para o estabelecimento de novas”, de acordo com Joaquim Pinto Bandeira em sua Notícia da descoberta do Campo de Palmas”.
Palmas
A existência de largos campos ao sul do rio Iguaçu e da 5ª Comarca de São Paulo, separados dos campos de Guarapuava apenas por um sertão de poucas léguas de largura marginal desse rio, era conhecida desde o século XVII. Nessa época os paulistas os alcançaram com suas bandeiras levadas às regiões do Goyo-En (rio Uruguai) quando depredaram as missões do Uruguai.
Os Campos de Guarapuava conquistados aos indígenas estavam divididos em fazendas de criação de grande extensão. Essa ocupação atraiu novos criadores de gado e os habitantes do planalto passaram a encarar os Campos de Palmas como alternativa atraente a quem se habilitasse a conquistá-los aos selvagens.
Joaquim Ferreira dos Santos, morador em Guarapuava, organizou em 1839 uma expedição de exploração e posse dos Campos de Palmas. Bem informado sobre o rumo que devia seguir, Ferreira dos Santos atravessou o estreito sertão marginal do Iguaçu até o lugar denominado Alagoa. Regressou então a Guarapuava para trazer animais aos campos descobertos.
Outro explorador, Pedro de Siqueira Cortes, excluído da expedição de Joaquim Ferreira dos Santos, organizou por sua conta outra e lançou-se ao sertão com o mesmo objetivo: apoderar-se das terras. Abrindo caminho abaixo da passagem descoberta por Ferreira dos Santos, saiu nos Campos de Palmas, percorrendo-o na sua maior extensão. Queimou os campos e retirou-se, voltando pela picada aberta pelos primeiros exploradores.
Em pleno sertão, na picada que percorriam, as duas expedições encontraram-se, disputando violentamente os direitos sobre os Campos de Palmas. Os membros das duas expedições dedicaram-se durante todo o ano de 1839 ao transporte e assentamento do gado trazido de Guarapuava nos campos recém-descobertos, numa atividade frenética de fundação de suas fazendas. A disputa acabaria resolvida com a participação de árbitros de Curitiba. Coube a esses pioneiros o início da navegação no rio Iguaçu.
A ocupação dos Campos de Palmas reavivou a necessidade de encontrar uma passagem para as regiões missioneiras, que eram os centros de abastecimento do comércio de tropas muares. Essa estrada foi rasgada em 1844, por iniciativa do governo provincial. Partindo de Palmas, passando pelos campos de Nonoaí, no Rio Grande, o caminho atingia as missões. Nessa época teve início o tráfego de tropas muares pelo caminho das missões rumo a Sorocaba. Os campos de Guarapuava e de palmas passaram então a ser utilizados para a invernagem dos animais.
A ocupação dos Campos Gerais e dos Campos de Guarapuava
Quando se descobriu o ouro em Minas Gerais, toda a região passou a dedicar-se quase exclusivamente à mineração. Levas e levas de gente chegava cada vez mais trazendo o sonho da riqueza. Essa população enorme precisava comer, vestir-se, beber; e dinheiro não faltava – o ouro podia comprar tudo.
O gado do nordeste veio pelo vale do São Francisco e as lavouras do Rio de Janeiro prosperaram. Os gaúchos também tinham o que vender: nas estâncias sulinas havia cavalos e muares. Trazidos até São Paulo, iriam servir para o transporte dos produtos enviados para as minas; o gado de corte poderia abastecer de carne a zona do garimpo e a população do Rio de Janeiro.
Partindo das terras do Rio Grande do Sul, cortando Santa Catarina, as boiadas eram guiadas pelo rio Negro, próximo às nascentes do Iguaçu, distantes uns 150 quilômetros do litoral.
A região – os Campos Gerais –, um planalto com altitude em geral superior a 800 metros, formava um corredor natural desde o sul até São Paulo, entre duas serras: a serra do Mar e a serra Geral (ou da Boa Esperança), situada mais a oeste e num nível mais baixo de terreno.
Assim esse corredor do gado – os Campos Gerais – aparecia como um dos degraus de uma escada natural que descia no sentido leste-oeste. A topografia era suave e a maior parte do terreno se cobria de vegetação herbácea, apenas entrecortada de capões de mato, de onde os pinheiros se estendiam para o céu.
As grandes e freqüentes viagens começaram a deixar suas marcas. Rota batida, aqui um abrigo, construído e deixado para ser usado depois; ali uma cerca marcando um pouso seguro para o gado. E o que era pausa de uma só noite foi se tornando uma parada mais prolongada. Se o gado pudesse descansar mais, chegaria em melhores condições a Sorocaba e alcançaria melhores preços na grande feira que atraía compradores de todos os pontos de mineração. Surgiram invernadas para engorda do gado, alguns resolveram estabelecer estâncias, cuidar da criação ali mesmo. Grupos de pequenas e espaçadas casas apareciam à beira do caminho, formavam um povoado, e iam ganhando nomes: Castro, Ponta Grossa, Lapa, Palmeira.
O gado introduzido no planalto curitibano encontrou ambiente favorável, alcançou os Campos Gerais no século XVIII e os Campos de Guarapuava no século XIX, conquistado aos índios por meio da “guerra justa”, de que trataremos adiante.
Com a abertura das fazendas a criação passou a ser a principal atividade da população que não encontrava mercado para a sua produção agrícola. Ao percorrer os Campos Gerais, Saint-Hilaire anotou: “Não se cuida de outra coisa senão da criação de gado [...] Os homens estão sempre a cavalo e andam quase sempre a galope [...] Os meninos aprendem desde a mais tenra idade a atirar o laço”.
A criação do gado abriu caminhos e povoou o sertão. Nasceram as grandes fazendas e os pequenos sítios ao longo dos caminhos. Para conseguir uma propriedade nos Campos Gerais, o interessado escolhia uma paragem e soltava algumas cabeças de gado. Tempos depois requeria a concessão da sesmaria. As propriedades variavam entre quatro e oito mil alqueires paulistas. No período 1725-1744 surgiram cerca de 90 sesmeiros. O número de sesmarias era, porém, bem maior, pois muitos tinham mais de uma.
Os sítios eram pequenas propriedades exploradas e ocupadas verdadeiramente por seus posseiros. Ficavam próximos dos povoados e nas margens da estrada das tropas. A maioria dos sitiantes não tinha escravos, cuidavam de algumas vacas, cavalos, muares e pequenos animais, plantavam feijão e milho e abasteciam as tropas que passavam pela região.
Os Campos Gerais eram em meados do século XVIII uma frente de ocupação e exploração do caminho das tropas. Lentamente, as sesmarias expandiram-se na direção oeste e norte, ocupando os campos de Piraí, Jaguariaíva e Tibagi. Depois da independência do Brasil, em 1822, e especialmente depois da fundação da Província do Paraná, em 1853, os fazendeiros dos Campos Gerais tornaram-se a elite econômica e política do Paraná.
Guarapuava
A ocupação dos Campos de Guarapuava foi um processo mais de uma vez iniciado e malsucedido desde a sua “descoberta” em 1770. Nada menos de cinco expedições foram organizadas e levadas ao ocidente, com o objetivo de descobrir os Campos de Guarapuava, os Campos de Palmas e outras regiões ainda em poder dos indígenas.
Esses esforços eram fruto do temor do governo português de uma ocupação espanhola efetiva. Várias penetrações foram feitas pelos vales dos grandes rios, como o Iguatemi, o Tibagi, o Ivaí e outros. Entretanto, desde a descoberta e a ocupação efetiva dos Campos de Guarapuava passaram-se cerca de 40 anos. Só com a vinda da família real ao Brasil é que a ocupação se concretizou. Relata Romário Martins:
“A posse efetiva dos Campos de Guarapuava, cuja denominação abrangia os vastos territórios de Guaíra de onde os paulistas haviam, no século XVII, expulsado as organizações civis e religiosas dos espanhóis [...] novamente entrou nas cogitações portuguesas com a vinda de D. João, regente do Reino, para o Rio de Janeiro.
Embora o Tratado de Santo Ildefonso tivesse resolvido o traço das fronteiras entre Portugal e Espanha quanto aos seus domínios americanos, ainda era, contudo, motivo de cogitações a necessidade de ocupar territórios conquistados pelos paulistas além da Linha Meridiana que entre as duas coroas dividia os respectivos direitos em terras do Novo Mundo”.
Em Carta Régia de 1808, o príncipe regente determinava ao capitão-general de São Paulo “que fosse feita guerra aos índios que impediam o povoamento e dadas sesmarias nos Campos de Guarapuava e ao longo das vias de comunicação com esses campos, a partir de Curitiba, tento em vista o quase total abandono em que se achavam os Campos Gerais de Curitiba e os de Guarapuava”.
Para cumprir a determinação criou-se a Junta da Real Expedição e Conquista de Guarapuava. A 27 de junho de 1810 levantou-se no ponto onde se situava a Fazenda Trindade, uma atalaia (torre de vigia). As primeiras construções se concluíram em 1812 e iniciou-se o aldeamento dos índios.
Por alvará Régio de 11 de novembro de 1819 criou-se a Freguesia de Guarapuava de Nossa Senhora de Belém. Em 1852 a povoação foi elevada à categoria de Vila. A Vila recebeu foros de cidade em 1871.
A expedição militar de 1810 fora apenas a vanguarda da conquista. Os grandes contingentes estavam na multidão de fazendeiros dos Campos Gerais em busca de terras novas e campo limpo para ampliar as criações de gado. Moradores pobres dos Campos Gerais instalaram-se em Guarapuava e receberam porções de terra em torno da vila. Os grandes fazendeiros conseguiram mais, e levaram grande número de animais.
Por volta de 1836, Guarapuava se encontrava “muito opulenta em riquezas e população, habitada por abastados fazendeiros e negociantes, o campo todo povoado e coberto de animais de criar, não havendo mais lugar para se estenderem as fazendas e menos para o estabelecimento de novas”, de acordo com Joaquim Pinto Bandeira em sua Notícia da descoberta do Campo de Palmas”.
Palmas
A existência de largos campos ao sul do rio Iguaçu e da 5ª Comarca de São Paulo, separados dos campos de Guarapuava apenas por um sertão de poucas léguas de largura marginal desse rio, era conhecida desde o século XVII. Nessa época os paulistas os alcançaram com suas bandeiras levadas às regiões do Goyo-En (rio Uruguai) quando depredaram as missões do Uruguai.
Os Campos de Guarapuava conquistados aos indígenas estavam divididos em fazendas de criação de grande extensão. Essa ocupação atraiu novos criadores de gado e os habitantes do planalto passaram a encarar os Campos de Palmas como alternativa atraente a quem se habilitasse a conquistá-los aos selvagens.
Joaquim Ferreira dos Santos, morador em Guarapuava, organizou em 1839 uma expedição de exploração e posse dos Campos de Palmas. Bem informado sobre o rumo que devia seguir, Ferreira dos Santos atravessou o estreito sertão marginal do Iguaçu até o lugar denominado Alagoa. Regressou então a Guarapuava para trazer animais aos campos descobertos.
Outro explorador, Pedro de Siqueira Cortes, excluído da expedição de Joaquim Ferreira dos Santos, organizou por sua conta outra e lançou-se ao sertão com o mesmo objetivo: apoderar-se das terras. Abrindo caminho abaixo da passagem descoberta por Ferreira dos Santos, saiu nos Campos de Palmas, percorrendo-o na sua maior extensão. Queimou os campos e retirou-se, voltando pela picada aberta pelos primeiros exploradores.
Em pleno sertão, na picada que percorriam, as duas expedições encontraram-se, disputando violentamente os direitos sobre os Campos de Palmas. Os membros das duas expedições dedicaram-se durante todo o ano de 1839 ao transporte e assentamento do gado trazido de Guarapuava nos campos recém-descobertos, numa atividade frenética de fundação de suas fazendas. A disputa acabaria resolvida com a participação de árbitros de Curitiba. Coube a esses pioneiros o início da navegação no rio Iguaçu.
A ocupação dos Campos de Palmas reavivou a necessidade de encontrar uma passagem para as regiões missioneiras, que eram os centros de abastecimento do comércio de tropas muares. Essa estrada foi rasgada em 1844, por iniciativa do governo provincial. Partindo de Palmas, passando pelos campos de Nonoaí, no Rio Grande, o caminho atingia as missões. Nessa época teve início o tráfego de tropas muares pelo caminho das missões rumo a Sorocaba. Os campos de Guarapuava e de palmas passaram então a ser utilizados para a invernagem dos animais.
4
A fundação de Curitiba
A fundação de Curitiba
As origens de Curitiba datam da segunda metade do século XVII e estão ligadas à mineração, à pecuária e, indiretamente, ao apresamento de índios.
A localização de uma comunidade no Planalto Curitibano, que dará origem à vila de Curitiba, é resultado direto da atividade mineradora e indireto das bandeiras paulistas.
Não há data exata para a fundação da povoação de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, futura cidade de Curitiba. Contudo, de acordo com informações registradas pelo Dr. Raphael Pires Pardinho, Ouvidor Geral da vila em 1761, pode-se admitir como iniciada a povoação por volta de 1661.
Os Campos Gerais eram passagem para o oeste e para o sul. Não despertaram a atenção dos bandeirantes para a possibilidade de exploração dos recursos naturais; o seu interesse imediato era o aprisionamento de índios. Mas, de acordo com o historiador Alfredo Ellis Júnior, foi a bandeira de Antonio Domingues a responsável pelo assentamento de Baltazar Carrasco dos Reis na região. Ele fez seu pedido de sesmaria em campos curitibanos em 1661 alegando ser morador “a alguns anos no povoado de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e que não tendo terras para lavrar [...] e como se acham devolutas as terras onde tem sua morada nas outras bandas do rio Barigui, vem pedir que [...] lhe conceda uma sesmaria de terras”.
Notícias exatas e referências documentadas só existem a partir dessa data, com a concessão da sesmaria a Baltazar Carrasco dos Reis, no Barigui, e após a ereção do pelourinho, em 1668, pelo capitão-mor de Paranaguá, Gabriel de Lara. Cerca de 30 anos depois, temos que
“Além do núcleo principal de povoadores, dos elementos da elite seiscentista do sertão curitibano”- , conforme descreve Romário Martins, - “havia os grupos aventureiros errantes arraialados nas regiões auríferas, ao sabor dos descobrimentos e das explorações, provindos dos primeiros dias da história da mineração; os gaúchos nômades, os índios e seus mestiços, gente egressa das bandeiras e de outros centros da população paulista; e os índios ‘administrados’, ‘peças do gentio da terra’, como diziam os povoadores”.
A constituição de uma autoridade na povoação era uma necessidade. A falta de repressão a esses elementos perturbadores da ordem pública; o progresso da localidade; a falta de autoridade do capitão-povoador, já velho e decrépito; e a distância e dificuldade de comunicação com a capitania de São Paulo, tudo isso motivou e forçou a elevação do povoado à categoria de vila.
O pelourinho erguido em 1668 era o símbolo da autoridade regional, mas Gabriel de Lara não realizou as eleições necessárias e os problemas políticos e administrativos da povoação não tiveram solução.
Foi então que em 1693 o povo se dirigiu em requerimento subscrito por quase todos os moradores da localidade, ao capitão-povoador Matheus Martins Leme, pedindo a criação da Vila e instituição da justiça, o que vale dizer, a organização do governo municipal. O requerimento é este:
“Os moradores todos assistentes nesta povoação de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos Pinhais que atendendo ao serviço de Deus e o de Sua Majestade, que Deus guarde, paz, quietação e bem comum deste povo, e por ser já hoje mui crescido por passarem de noventa homens, e quanto mais cresce a gente se vão fazendo maiores desaforos, e bem se viu esta festa andarmos todos com as armas na mão, e apeloirou-se dos outros mais e outros insultos de roubos, como é notório e constante pelos casos que tem sucedido e daqui em diante será pior, o que tudo causa o estar este dito povo tão desamparado de governo e disciplina da justiça. E atendendo nós, que ao diante será pior por não haver a dita justiça na dita povoação, nos ocorremos a Vossa Mercê como capitão e cabeça dela, e por ser já decrépito e não lhe obedecerem, seja servido prometer a que haja justiça nesta vila, pois nela há gente bastante para exercer os cargos da dita justiça que faz número de três povos. E pela ordenação ordena Sua Majestade que havendo 30 homens se eleja justiça, e demais de que consta que Vossa Mercê por duas vezes procurou aos capitães-mores das capitanias debaixo lhe viessem criar justiça na dita povoação, sendo que não era necessário por ter havido já aqui justiça na dita povoação, sendo que não era necessário por ter havido já aqui justiça em algum tempo criada pelo defunto capitão-mor Gabriel de Lara, que levantou Pelourinho em nome do donatário o Senhor Marquês de Cascais; Pelo que requeremos a Vossa Mercê da parte de Deus e del-Rei que visto o que alegamos e o nosso pedir ser justo e bem comum de todo este povo, o mande ajuntar e fazer eleição e criar justiça e câmara formada, para que assim haja temor de Deus e del-Rei e pôr as coisas em caminho.
E receberá mercê". (Seguem-se as assinaturas)
Gado e comércio
Os moradores de Curitiba começaram a desenvolver a criação de gado vacum, cavalar e ovino a partir de 1668. Já então diversos habitantes do planalto curitibano possuíam pequenos rebanhos. A região oferecia condições favoráveis ao desenvolvimento da pecuária, mas a criação em grande escala, em Curitiba, era impossível devido ao seu isolamento dos demais centros produtores do país.
A ligação de Curitiba com São Paulo e com o Rio Grande do Sul, através do caminho de Sorocaba-Viamão, até então mal esboçado no sertão, somente se deu a partir de 1730.
O comércio e a criação de gado tiveram importante papel no povoamento do território paranaense. Muito maior certamente que a mineração do ouro, que não fixava populações senão muito excepcionalmente, como são os casos de Curitiba, Paranaguá e São José dos Pinhais.
Foi o governador da Capitania de São Paulo, Antonio Caldeira Pimentel, quem sugeriu em 1728-1730 a ligação de Curitiba com os pampas de Vacaria, no Rio Grande do Sul. Uma nova fase para a vida de Curitiba se delineou com a mudança de atividades de grande número dos seus habitantes. Alguns mineradores se fizeram tropeiros, invernadores e criadores de gado e retiraram das minas o pessoal necessário à empreitada.
Em 1735 o comércio de tropas entre Curitiba, Itu e Sorocaba estava estabelecido com certa intensidade.
A lavoura e a criação produziam excedentes de trigo, feijão, milho, fumo e toucinho. Com a erva-mate, esses produtos eram exportados para os mercados de São Paulo, Rio de Janeiro e capitanias do norte do Brasil.
A mineração, a criação e o comércio de gado e, por fim, a roça, formaram sucessivamente os três ciclos do povoamento do território curitibano.
Mas o desenvolvimento desse núcleo evoluiu de maneira bastante lenta pelo que se conclui após a consulta aos documentos da época.
Um relatório do Ouvidor Pardinho dirigido ao rei em 1721 sobre Curitiba afirmava: “esta povoação se principiou haverá 80 anos, por alguns moradores que subiram desta Vila (Paranaguá) e levaram pela Serra acima algumas cabeças de gado vacum e algumas éguas [...] Haverá nas duas freguesias da Curitiba 200 casais e mais de 1400 pessoas de confissão”.
Saint-Hilaire, em visita à Vila de Curitiba cem anos mais tarde, em 1820 informava: “Essa cidade tem a forma quase circular e se compõe de 220 casas pequenas e cobertas de telhas [...] em grande número construídas de pedras [...] Curitiba não é menos deserta durante a semana que a maioria das cidades do interior do Brasil. Quase todos os habitantes são aqui [...] agricultores que não ocupam suas casas senão aos domingos e nos dias de festa [...] Não se conta em Curitiba senão uns poucos ricos”.
O viajante francês também descreveu o povo paranaense: “Em nenhuma outra parte do Brasil eu havia visto tantos homens verdadeiramente brancos, como no distrito de Curitiba. Os habitantes daqui pronunciam o português sem a alteração que revela mistura da raça caucásica com a vermelha. São grandes e bonitos, têm os cabelos castanhos e a tez rosada, maneiras agradáveis, fisionomia aberta e nada têm do sarcástico humor que freqüentemente torna insuportáveis os empregados e comerciantes da capital do Brasil. As mulheres têm traços mais delicados que as das outras partes do império por onde viajei. Elas se escondem menos e conversam com desenvoltura".
Expansão para o Sul
A estrada de Curitiba para São Paulo, ligando os Campos Gerais a Sorocaba, já era usada desde os fins do século XVII. Os caminhos principais para o litoral já estavam abertos, apesar da precariedade. Atribui-se ao curitibano Zacarias Dias Cortes a abertura de novos caminhos, a partir de Curitiba. Ele teria chegado aos Campos de Palmas por volta de 1720. É quando se começa a cogitar a abertura de uma estrada que ligasse Curitiba até o Rio Grande. Surgem homens que planejam a arrojada empresa e se oferecem para executá-la com recursos próprios, como Bartolomeu Paes e Manoel Gonçalves de Aguiar.
Conhecida como a “Estrada da Mata”, sua construção foi iniciada em 1728. Bartolomeu Paes de Abreu propôs em 1720 ao rei D. João V abrir inteiramente às suas custas uma estrada de Curitiba à Colônia do Sacramento. A resposta do Rei de Portugal foi afirmativa, mas Bartolomeu foi substituído no empreendimento por Francisco de Souza e Faria.
Cristovão Pereira de Abreu corrige alguns trechos do caminho aberto por Francisco de Souza Faria e chega a Curitiba em 1731 com sua tropa de 800 animais. Em 1738 é aberto um caminho do Viamão até São Paulo, sem precisar passar por Laguna. É a “Estrada Real do Viamão”, que ligava Viamão, Santo Antonio da Patrulha, São Francisco de Paula, Campos de Vacaria, Campos de Lages, Campos Gerais, Itararé e Sorocaba.
Esses caminhos vão iniciar a era do tropeirismo. Abrem-se caminhos que vão trazer o gado chucro (“de vento”), remanescente dos aldeamentos dos jesuítas e solto nos campos do Rio Grande do Sul, até São Paulo, para ser vendido na feira de Sorocaba. Ao longo desses caminhos, surgiram pousos e povoações, origens de muitas cidades desses estados.
No território do Paraná, as Câmaras das Vilas logo começaram a reclamar, alegando que seus homens se largavam para as bandas do sul na “mania” do tropeirismo e não mais regressavam.
A localização de uma comunidade no Planalto Curitibano, que dará origem à vila de Curitiba, é resultado direto da atividade mineradora e indireto das bandeiras paulistas.
Não há data exata para a fundação da povoação de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, futura cidade de Curitiba. Contudo, de acordo com informações registradas pelo Dr. Raphael Pires Pardinho, Ouvidor Geral da vila em 1761, pode-se admitir como iniciada a povoação por volta de 1661.
Os Campos Gerais eram passagem para o oeste e para o sul. Não despertaram a atenção dos bandeirantes para a possibilidade de exploração dos recursos naturais; o seu interesse imediato era o aprisionamento de índios. Mas, de acordo com o historiador Alfredo Ellis Júnior, foi a bandeira de Antonio Domingues a responsável pelo assentamento de Baltazar Carrasco dos Reis na região. Ele fez seu pedido de sesmaria em campos curitibanos em 1661 alegando ser morador “a alguns anos no povoado de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e que não tendo terras para lavrar [...] e como se acham devolutas as terras onde tem sua morada nas outras bandas do rio Barigui, vem pedir que [...] lhe conceda uma sesmaria de terras”.
Notícias exatas e referências documentadas só existem a partir dessa data, com a concessão da sesmaria a Baltazar Carrasco dos Reis, no Barigui, e após a ereção do pelourinho, em 1668, pelo capitão-mor de Paranaguá, Gabriel de Lara. Cerca de 30 anos depois, temos que
“Além do núcleo principal de povoadores, dos elementos da elite seiscentista do sertão curitibano”- , conforme descreve Romário Martins, - “havia os grupos aventureiros errantes arraialados nas regiões auríferas, ao sabor dos descobrimentos e das explorações, provindos dos primeiros dias da história da mineração; os gaúchos nômades, os índios e seus mestiços, gente egressa das bandeiras e de outros centros da população paulista; e os índios ‘administrados’, ‘peças do gentio da terra’, como diziam os povoadores”.
A constituição de uma autoridade na povoação era uma necessidade. A falta de repressão a esses elementos perturbadores da ordem pública; o progresso da localidade; a falta de autoridade do capitão-povoador, já velho e decrépito; e a distância e dificuldade de comunicação com a capitania de São Paulo, tudo isso motivou e forçou a elevação do povoado à categoria de vila.
O pelourinho erguido em 1668 era o símbolo da autoridade regional, mas Gabriel de Lara não realizou as eleições necessárias e os problemas políticos e administrativos da povoação não tiveram solução.
Foi então que em 1693 o povo se dirigiu em requerimento subscrito por quase todos os moradores da localidade, ao capitão-povoador Matheus Martins Leme, pedindo a criação da Vila e instituição da justiça, o que vale dizer, a organização do governo municipal. O requerimento é este:
“Os moradores todos assistentes nesta povoação de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos Pinhais que atendendo ao serviço de Deus e o de Sua Majestade, que Deus guarde, paz, quietação e bem comum deste povo, e por ser já hoje mui crescido por passarem de noventa homens, e quanto mais cresce a gente se vão fazendo maiores desaforos, e bem se viu esta festa andarmos todos com as armas na mão, e apeloirou-se dos outros mais e outros insultos de roubos, como é notório e constante pelos casos que tem sucedido e daqui em diante será pior, o que tudo causa o estar este dito povo tão desamparado de governo e disciplina da justiça. E atendendo nós, que ao diante será pior por não haver a dita justiça na dita povoação, nos ocorremos a Vossa Mercê como capitão e cabeça dela, e por ser já decrépito e não lhe obedecerem, seja servido prometer a que haja justiça nesta vila, pois nela há gente bastante para exercer os cargos da dita justiça que faz número de três povos. E pela ordenação ordena Sua Majestade que havendo 30 homens se eleja justiça, e demais de que consta que Vossa Mercê por duas vezes procurou aos capitães-mores das capitanias debaixo lhe viessem criar justiça na dita povoação, sendo que não era necessário por ter havido já aqui justiça na dita povoação, sendo que não era necessário por ter havido já aqui justiça em algum tempo criada pelo defunto capitão-mor Gabriel de Lara, que levantou Pelourinho em nome do donatário o Senhor Marquês de Cascais; Pelo que requeremos a Vossa Mercê da parte de Deus e del-Rei que visto o que alegamos e o nosso pedir ser justo e bem comum de todo este povo, o mande ajuntar e fazer eleição e criar justiça e câmara formada, para que assim haja temor de Deus e del-Rei e pôr as coisas em caminho.
E receberá mercê". (Seguem-se as assinaturas)
Gado e comércio
Os moradores de Curitiba começaram a desenvolver a criação de gado vacum, cavalar e ovino a partir de 1668. Já então diversos habitantes do planalto curitibano possuíam pequenos rebanhos. A região oferecia condições favoráveis ao desenvolvimento da pecuária, mas a criação em grande escala, em Curitiba, era impossível devido ao seu isolamento dos demais centros produtores do país.
A ligação de Curitiba com São Paulo e com o Rio Grande do Sul, através do caminho de Sorocaba-Viamão, até então mal esboçado no sertão, somente se deu a partir de 1730.
O comércio e a criação de gado tiveram importante papel no povoamento do território paranaense. Muito maior certamente que a mineração do ouro, que não fixava populações senão muito excepcionalmente, como são os casos de Curitiba, Paranaguá e São José dos Pinhais.
Foi o governador da Capitania de São Paulo, Antonio Caldeira Pimentel, quem sugeriu em 1728-1730 a ligação de Curitiba com os pampas de Vacaria, no Rio Grande do Sul. Uma nova fase para a vida de Curitiba se delineou com a mudança de atividades de grande número dos seus habitantes. Alguns mineradores se fizeram tropeiros, invernadores e criadores de gado e retiraram das minas o pessoal necessário à empreitada.
Em 1735 o comércio de tropas entre Curitiba, Itu e Sorocaba estava estabelecido com certa intensidade.
A lavoura e a criação produziam excedentes de trigo, feijão, milho, fumo e toucinho. Com a erva-mate, esses produtos eram exportados para os mercados de São Paulo, Rio de Janeiro e capitanias do norte do Brasil.
A mineração, a criação e o comércio de gado e, por fim, a roça, formaram sucessivamente os três ciclos do povoamento do território curitibano.
Mas o desenvolvimento desse núcleo evoluiu de maneira bastante lenta pelo que se conclui após a consulta aos documentos da época.
Um relatório do Ouvidor Pardinho dirigido ao rei em 1721 sobre Curitiba afirmava: “esta povoação se principiou haverá 80 anos, por alguns moradores que subiram desta Vila (Paranaguá) e levaram pela Serra acima algumas cabeças de gado vacum e algumas éguas [...] Haverá nas duas freguesias da Curitiba 200 casais e mais de 1400 pessoas de confissão”.
Saint-Hilaire, em visita à Vila de Curitiba cem anos mais tarde, em 1820 informava: “Essa cidade tem a forma quase circular e se compõe de 220 casas pequenas e cobertas de telhas [...] em grande número construídas de pedras [...] Curitiba não é menos deserta durante a semana que a maioria das cidades do interior do Brasil. Quase todos os habitantes são aqui [...] agricultores que não ocupam suas casas senão aos domingos e nos dias de festa [...] Não se conta em Curitiba senão uns poucos ricos”.
O viajante francês também descreveu o povo paranaense: “Em nenhuma outra parte do Brasil eu havia visto tantos homens verdadeiramente brancos, como no distrito de Curitiba. Os habitantes daqui pronunciam o português sem a alteração que revela mistura da raça caucásica com a vermelha. São grandes e bonitos, têm os cabelos castanhos e a tez rosada, maneiras agradáveis, fisionomia aberta e nada têm do sarcástico humor que freqüentemente torna insuportáveis os empregados e comerciantes da capital do Brasil. As mulheres têm traços mais delicados que as das outras partes do império por onde viajei. Elas se escondem menos e conversam com desenvoltura".
Expansão para o Sul
A estrada de Curitiba para São Paulo, ligando os Campos Gerais a Sorocaba, já era usada desde os fins do século XVII. Os caminhos principais para o litoral já estavam abertos, apesar da precariedade. Atribui-se ao curitibano Zacarias Dias Cortes a abertura de novos caminhos, a partir de Curitiba. Ele teria chegado aos Campos de Palmas por volta de 1720. É quando se começa a cogitar a abertura de uma estrada que ligasse Curitiba até o Rio Grande. Surgem homens que planejam a arrojada empresa e se oferecem para executá-la com recursos próprios, como Bartolomeu Paes e Manoel Gonçalves de Aguiar.
Conhecida como a “Estrada da Mata”, sua construção foi iniciada em 1728. Bartolomeu Paes de Abreu propôs em 1720 ao rei D. João V abrir inteiramente às suas custas uma estrada de Curitiba à Colônia do Sacramento. A resposta do Rei de Portugal foi afirmativa, mas Bartolomeu foi substituído no empreendimento por Francisco de Souza e Faria.
Cristovão Pereira de Abreu corrige alguns trechos do caminho aberto por Francisco de Souza Faria e chega a Curitiba em 1731 com sua tropa de 800 animais. Em 1738 é aberto um caminho do Viamão até São Paulo, sem precisar passar por Laguna. É a “Estrada Real do Viamão”, que ligava Viamão, Santo Antonio da Patrulha, São Francisco de Paula, Campos de Vacaria, Campos de Lages, Campos Gerais, Itararé e Sorocaba.
Esses caminhos vão iniciar a era do tropeirismo. Abrem-se caminhos que vão trazer o gado chucro (“de vento”), remanescente dos aldeamentos dos jesuítas e solto nos campos do Rio Grande do Sul, até São Paulo, para ser vendido na feira de Sorocaba. Ao longo desses caminhos, surgiram pousos e povoações, origens de muitas cidades desses estados.
No território do Paraná, as Câmaras das Vilas logo começaram a reclamar, alegando que seus homens se largavam para as bandas do sul na “mania” do tropeirismo e não mais regressavam.
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Povoamento do litoral – O ouro em Paranaguá
Encontrar ouro nas terras do Brasil foi o grande sonho acalentado pelos portugueses desde os primeiros dias do descobrimento. Entre as regiões onde primeiro apareceram notícias de minas auríferas, e que mais esperanças despertaram de grandes êxitos, figurou Paranaguá.
Terminado o ciclo de caça ao índio, continuaram os paulistas, agora estimulados pelo rei de Portugal, a penetrar os sertões em busca do ouro. A maioria dos bandeirantes rumava para o interior, para o norte, ou para o oeste, mas alguns resolveram caminhar para o sul, junto ao litoral.
Ultrapassando um braço da Serra do Mar que se projeta até o litoral (a Serra de Taquari), acompanhando a costa por mais de 35 quilômetros, chegaram a um local onde o mar, avançando quase 50 quilômetros para o interior, interrompe o continente. A entrada da baía é marcada ao norte pela ponta Inácio Dias, ao sul pelo pontal do Sul e bloqueada pela presença de duas grandes ilhas – das Peças e do Mel. Passando por um dos canais que separam as pontas e a as ilhas, encontram-se no interior duas baías distintas. Uma, no sentido norte, é a das Laranjeiras, foz dos rios Serra Negra e Tagaçaba. À outra, na direção oeste, recebendo inúmeros riachos e com um bom porto natural, chamaram Paranaguá.
Na lama dos ribeirões que corriam para a baía de Paranaguá, os paulistas encontraram o ouro que tanto procuravam. A notícia se espalhou, gente de São Vicente e do Rio de Janeiro veio tentar a sorte. No porto, à entrada da baía, nasceu uma vila: Paranaguá; no fundo, mais uma: Antonina. E mais para o interior, seguindo os ribeirões, uma terceira: Morretes.
A descoberta do ouro nos ribeirões que deságuam na baía de Paranaguá trouxe gente e mais gente: de Santos, São Vicente, Cananéia, São Paulo e até do Rio de Janeiro. No começo os contingentes se fixaram na ilha de Cotinga, temerosos dos índios carijós. Aos poucos, mudaram-se para o continente, fundando Paranaguá, o primeiro núcleo populacional paranaense organizado pelos portugueses. A partir dele, inicia-se a ocupação das áreas próximas, tendo sempre o ouro como motivação.
Paranaguá ganhará forma política e jurídica em 1646-1648, com a instalação do pelourinho e a organização de eleições para definir as autoridades da vila.
As minas do litoral ficavam a oeste e ao norte da baía de Paranaguá. Os mineradores exploravam o cascalho dos rios usando a bateia. As minas mais famosas do litoral foram a do Pantanal, a Panajóias, Limoeiro, Marumbi, Serra Negra, entre outras. Mais gente foi chegando e subiu os rios que deságuam na baía de Paranaguá. Passaram a Serra do Mar para faiscar no Planalto ainda no século XVII.
Em 1655 a Câmara de Paranaguá solicita ao governador do Rio de Janeiro a instalação de uma oficina de fundição na vila. Argumenta que a viagem com o ouro até Iguape para separar o quinto era perigosa. A reivindicação foi atendida e a casa de fundição passou a transformar em barras todo o ouro encontrado nos garimpos, colocando o carimbo real e cobrando o quinto. A circulação de ouro em pó ou em pepitas era proibida. As barras eram remetidas à Casa da Moeda do Rio de Janeiro, transformadas em moedas e enviadas a Portugal.
O sociólogo Octávio Ianni sustenta que a Comarca de Curitiba foi originalmente povoada por europeus chegados diretamente de Portugal a Paranaguá, provavelmente atraídos pelas minas de ouro da região, e que, em seguida, atravessaram a Serra do Mar com esse objetivo.
Duas eram as rotas mais usadas para alcançar o planalto; pelo rio Nhundiaquara; e pelo vale do Ribeira, que nasce no segundo planalto paranaense, atravessa a Serra do Mar e deságua no litoral paulista.
Estabelece-se um caminho até São Paulo, direto, sem cruzar a serra ou chegar ao litoral. As veredas abertas na travessia da Serra do Mar vão originar os primeiros caminhos que ligaram o litoral com o planalto, como o da Graciosa, Itupava e do Arraial. No Planalto a exploração atingiu grandes proporções. Garimpava-se na região de Curitiba, Assungui, Tibagi. As minas do Arraial Grande deram origem à cidade de São José dos Pinhais.
Paranaguá destacou-se tanto a ponto de lhe conferirem, em 1660, o título e as responsabilidades de Capitania._ Assim permanecerá por meio século. O ano de 1725 assinala a separação das ouvidorias de São Paulo e Paranaguá. Todo o sul fica subordinado a Paranaguá, alongando-se os territórios até ao Rio Grande, ao Rio da Prata, inclusive o Uruguai. Passa-se mais de meio século e Paranaguá continua o mais importante porto situado logo acima das conquistas espanholas. A vila recebe as atenções e melhorias que lhe cabem como baluarte que se destinava a ser diante das ameaças espanholas após a anulação do Tratado de Madri.
O ouro, entretanto, achou-se e se foi. Entre as providências diante da ameaça espanhola, figurou a construção de uma fortaleza. As obras começaram em 1767. Para diminuir as despesas da Real fazenda, o governador de São Paulo pediu que a Vila de Paranaguá auxiliasse como fosse possível.
Os vereadores convocados para tomar conhecimento da solicitação revelaram que Paranaguá atravessava por essa época uma fase de extrema decadência econômica e social, pois deliberou:
“Que atendendo ao miserável estado da terra, a seus moradores não lhes convinha contribuir com coisa alguma para a obra, pois que por limitada que fosse [a contribuição] a julgavam violenta [...] e distinguindo a qualidade dos seus moradores, se achariam só sessenta ou setenta com algum tratamento, sendo tudo o mais gente de pé descalço [...] que o ouro que produzia a comarca, compreendidas as vilas de Iguape, Paranaguá, Rio de São Francisco e Curitiba, não excedia, um ano por outro, pelo manifesto da Intendência, a cem libras pouco mais ou menos”.
[Inserir mapa com a localização das minas de ouro, com as vias de penetração dos faiscadores e o local das minas principais]
Do ponto de vista do colonizador, a mineração do ouro foi o primeiro ciclo econômico do Paraná e deixou aspectos positivos para o desenvolvimento da região. Possibilitou o povoamento do litoral, a fundação de Paranaguá, o desbravamento e colonização do primeiro planalto, então desconhecido, a fundação de Curitiba, a abertura e/ou consolidação de caminhos que uniram o planalto curitibano ao litoral vencendo a Serra do Mar. Esses caminhos constituiriam as vias de comunicação vitais para o desenvolvimento regional.
Ébano Pereira e Gabriel de Lara
O primeiro chefe de exploração que aparece na história do Paraná como fundador de diversas povoações, entre elas Paranaguá, é Theodoro ou Eleodoro Ébano Pereira. Não se sabe a data exata de sua chegada a Paranaguá. Estima-se que tenha sido em princípios do séc. XVII.
Por volta de 1650 já havia famílias no local onde se lançaram os fundamentos da primeira povoação formada em território do atual estado do Paraná. Ébano Pereira já estava em Paranaguá antes de 4 de março de 1649, data em que comunicou à Câmara, instituída nesse ano, sua qualidade oficial de Administrador das Minas. “A única autoridade derivante do Governo-Geral do Rio de Janeiro com jurisdição nesse distrito do sul era a dele próprio”, conforma Romário Martins.
Ébano Pereira ficou pouco na povoação da qual foi um dos fundadores, à margem esquerda do Itiberé, numa bela planície, de acordo com Rocha Pombo.
Ao que tudo indica, o primeiro capitão-mor de Paranaguá foi Gabriel de Lara. Ele exerceu muitos cargos na antiga comarca de Paranaguá: por volta de 1640 era Capitão-mor, e em 1669 ainda era Ouvidor da comarca. Foi sob Gabriel de Lara que se levantou o pelourinho, tanto em Paranaguá (1646) como em Curitiba (1658).
Gabriel de Lara não foi o primeiro a se estabelecer em Paranaguá. Quando chegou à povoação, já encontrou muitos pioneiros de seu povoamento. Em maio de 1632, Gabriel de Lara residia na vila de Iguape e antes de 1646 em Paranaguá, onde se dedicava a descobrir jazidas de ouro. Em 1646, estava em São Paulo anunciando descobrimentos de ouro no distrito que estava povoando.
A história de Paranaguá, à luz de documentos, começa com a ação de Gabriel de Lara: o seu povoamento, o descobrimento de ouro, a organização social, a sua fundação política e administrativa. Lara é o capitão-mor, o ouvidor, o alcaide, o lugar-tenente do donatário (Marquês de Cascais), o governador da Capitania em nome de El-rei. A partir de 1640 e até 1682, quando faleceu, Gabriel de Lara ocupou todos os postos do poder público na terra que encontrou como núcleo indeciso de aventureiros. Por isso é celebrado pela história oficial como o homem que soube conduzir e desenvolver o povoado, tornando-o o mais importante centro de civilização em seu tempo de todos os confins meridionais da Colônia, depois de São Vicente.
Povoamento do litoral – O ouro em Paranaguá
Encontrar ouro nas terras do Brasil foi o grande sonho acalentado pelos portugueses desde os primeiros dias do descobrimento. Entre as regiões onde primeiro apareceram notícias de minas auríferas, e que mais esperanças despertaram de grandes êxitos, figurou Paranaguá.
Terminado o ciclo de caça ao índio, continuaram os paulistas, agora estimulados pelo rei de Portugal, a penetrar os sertões em busca do ouro. A maioria dos bandeirantes rumava para o interior, para o norte, ou para o oeste, mas alguns resolveram caminhar para o sul, junto ao litoral.
Ultrapassando um braço da Serra do Mar que se projeta até o litoral (a Serra de Taquari), acompanhando a costa por mais de 35 quilômetros, chegaram a um local onde o mar, avançando quase 50 quilômetros para o interior, interrompe o continente. A entrada da baía é marcada ao norte pela ponta Inácio Dias, ao sul pelo pontal do Sul e bloqueada pela presença de duas grandes ilhas – das Peças e do Mel. Passando por um dos canais que separam as pontas e a as ilhas, encontram-se no interior duas baías distintas. Uma, no sentido norte, é a das Laranjeiras, foz dos rios Serra Negra e Tagaçaba. À outra, na direção oeste, recebendo inúmeros riachos e com um bom porto natural, chamaram Paranaguá.
Na lama dos ribeirões que corriam para a baía de Paranaguá, os paulistas encontraram o ouro que tanto procuravam. A notícia se espalhou, gente de São Vicente e do Rio de Janeiro veio tentar a sorte. No porto, à entrada da baía, nasceu uma vila: Paranaguá; no fundo, mais uma: Antonina. E mais para o interior, seguindo os ribeirões, uma terceira: Morretes.
A descoberta do ouro nos ribeirões que deságuam na baía de Paranaguá trouxe gente e mais gente: de Santos, São Vicente, Cananéia, São Paulo e até do Rio de Janeiro. No começo os contingentes se fixaram na ilha de Cotinga, temerosos dos índios carijós. Aos poucos, mudaram-se para o continente, fundando Paranaguá, o primeiro núcleo populacional paranaense organizado pelos portugueses. A partir dele, inicia-se a ocupação das áreas próximas, tendo sempre o ouro como motivação.
Paranaguá ganhará forma política e jurídica em 1646-1648, com a instalação do pelourinho e a organização de eleições para definir as autoridades da vila.
As minas do litoral ficavam a oeste e ao norte da baía de Paranaguá. Os mineradores exploravam o cascalho dos rios usando a bateia. As minas mais famosas do litoral foram a do Pantanal, a Panajóias, Limoeiro, Marumbi, Serra Negra, entre outras. Mais gente foi chegando e subiu os rios que deságuam na baía de Paranaguá. Passaram a Serra do Mar para faiscar no Planalto ainda no século XVII.
Em 1655 a Câmara de Paranaguá solicita ao governador do Rio de Janeiro a instalação de uma oficina de fundição na vila. Argumenta que a viagem com o ouro até Iguape para separar o quinto era perigosa. A reivindicação foi atendida e a casa de fundição passou a transformar em barras todo o ouro encontrado nos garimpos, colocando o carimbo real e cobrando o quinto. A circulação de ouro em pó ou em pepitas era proibida. As barras eram remetidas à Casa da Moeda do Rio de Janeiro, transformadas em moedas e enviadas a Portugal.
O sociólogo Octávio Ianni sustenta que a Comarca de Curitiba foi originalmente povoada por europeus chegados diretamente de Portugal a Paranaguá, provavelmente atraídos pelas minas de ouro da região, e que, em seguida, atravessaram a Serra do Mar com esse objetivo.
Duas eram as rotas mais usadas para alcançar o planalto; pelo rio Nhundiaquara; e pelo vale do Ribeira, que nasce no segundo planalto paranaense, atravessa a Serra do Mar e deságua no litoral paulista.
Estabelece-se um caminho até São Paulo, direto, sem cruzar a serra ou chegar ao litoral. As veredas abertas na travessia da Serra do Mar vão originar os primeiros caminhos que ligaram o litoral com o planalto, como o da Graciosa, Itupava e do Arraial. No Planalto a exploração atingiu grandes proporções. Garimpava-se na região de Curitiba, Assungui, Tibagi. As minas do Arraial Grande deram origem à cidade de São José dos Pinhais.
Paranaguá destacou-se tanto a ponto de lhe conferirem, em 1660, o título e as responsabilidades de Capitania._ Assim permanecerá por meio século. O ano de 1725 assinala a separação das ouvidorias de São Paulo e Paranaguá. Todo o sul fica subordinado a Paranaguá, alongando-se os territórios até ao Rio Grande, ao Rio da Prata, inclusive o Uruguai. Passa-se mais de meio século e Paranaguá continua o mais importante porto situado logo acima das conquistas espanholas. A vila recebe as atenções e melhorias que lhe cabem como baluarte que se destinava a ser diante das ameaças espanholas após a anulação do Tratado de Madri.
O ouro, entretanto, achou-se e se foi. Entre as providências diante da ameaça espanhola, figurou a construção de uma fortaleza. As obras começaram em 1767. Para diminuir as despesas da Real fazenda, o governador de São Paulo pediu que a Vila de Paranaguá auxiliasse como fosse possível.
Os vereadores convocados para tomar conhecimento da solicitação revelaram que Paranaguá atravessava por essa época uma fase de extrema decadência econômica e social, pois deliberou:
“Que atendendo ao miserável estado da terra, a seus moradores não lhes convinha contribuir com coisa alguma para a obra, pois que por limitada que fosse [a contribuição] a julgavam violenta [...] e distinguindo a qualidade dos seus moradores, se achariam só sessenta ou setenta com algum tratamento, sendo tudo o mais gente de pé descalço [...] que o ouro que produzia a comarca, compreendidas as vilas de Iguape, Paranaguá, Rio de São Francisco e Curitiba, não excedia, um ano por outro, pelo manifesto da Intendência, a cem libras pouco mais ou menos”.
[Inserir mapa com a localização das minas de ouro, com as vias de penetração dos faiscadores e o local das minas principais]
Do ponto de vista do colonizador, a mineração do ouro foi o primeiro ciclo econômico do Paraná e deixou aspectos positivos para o desenvolvimento da região. Possibilitou o povoamento do litoral, a fundação de Paranaguá, o desbravamento e colonização do primeiro planalto, então desconhecido, a fundação de Curitiba, a abertura e/ou consolidação de caminhos que uniram o planalto curitibano ao litoral vencendo a Serra do Mar. Esses caminhos constituiriam as vias de comunicação vitais para o desenvolvimento regional.
Ébano Pereira e Gabriel de Lara
O primeiro chefe de exploração que aparece na história do Paraná como fundador de diversas povoações, entre elas Paranaguá, é Theodoro ou Eleodoro Ébano Pereira. Não se sabe a data exata de sua chegada a Paranaguá. Estima-se que tenha sido em princípios do séc. XVII.
Por volta de 1650 já havia famílias no local onde se lançaram os fundamentos da primeira povoação formada em território do atual estado do Paraná. Ébano Pereira já estava em Paranaguá antes de 4 de março de 1649, data em que comunicou à Câmara, instituída nesse ano, sua qualidade oficial de Administrador das Minas. “A única autoridade derivante do Governo-Geral do Rio de Janeiro com jurisdição nesse distrito do sul era a dele próprio”, conforma Romário Martins.
Ébano Pereira ficou pouco na povoação da qual foi um dos fundadores, à margem esquerda do Itiberé, numa bela planície, de acordo com Rocha Pombo.
Ao que tudo indica, o primeiro capitão-mor de Paranaguá foi Gabriel de Lara. Ele exerceu muitos cargos na antiga comarca de Paranaguá: por volta de 1640 era Capitão-mor, e em 1669 ainda era Ouvidor da comarca. Foi sob Gabriel de Lara que se levantou o pelourinho, tanto em Paranaguá (1646) como em Curitiba (1658).
Gabriel de Lara não foi o primeiro a se estabelecer em Paranaguá. Quando chegou à povoação, já encontrou muitos pioneiros de seu povoamento. Em maio de 1632, Gabriel de Lara residia na vila de Iguape e antes de 1646 em Paranaguá, onde se dedicava a descobrir jazidas de ouro. Em 1646, estava em São Paulo anunciando descobrimentos de ouro no distrito que estava povoando.
A história de Paranaguá, à luz de documentos, começa com a ação de Gabriel de Lara: o seu povoamento, o descobrimento de ouro, a organização social, a sua fundação política e administrativa. Lara é o capitão-mor, o ouvidor, o alcaide, o lugar-tenente do donatário (Marquês de Cascais), o governador da Capitania em nome de El-rei. A partir de 1640 e até 1682, quando faleceu, Gabriel de Lara ocupou todos os postos do poder público na terra que encontrou como núcleo indeciso de aventureiros. Por isso é celebrado pela história oficial como o homem que soube conduzir e desenvolver o povoado, tornando-o o mais importante centro de civilização em seu tempo de todos os confins meridionais da Colônia, depois de São Vicente.
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