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A imigração

Introdução

A sociedade paranaense construída nos séculos XVII, XVIII e XIX era escravocrata, baseada na exploração da força de trabalho representada primeiro pelos índios e mais tarde pelos africanos e seus descendentes.

É freqüente afirmar-se que o índio e o negro não tiveram participação importante na formação da população paranaense. Entretanto, em proporção ao número de habitantes, em determinados períodos e espaços, esses contingentes étnicos ocuparam posição significativa.

O censo de 1772 apontava na composição da população do Paraná 1.712 escravos e 5.915 homens livres; a população escrava representava 28,8% dos habitantes. Em Paranaguá, porém, os escravos alcançavam proporções mais elevadas: 44,2% dos habitantes.

A população indígena tinha sua liberdade assegurada nos textos legais, mas na prática a situação era outra. A Carta Régia de cinco de novembro de 1808 determinava: “qualquer morador que segurar alguns índios poderá considerá-los por 15 anos como prisioneiros de guerra, destinando-os ao serviço que mais lhe convier”. Esse subterfúgio praticamente legitimava a escravidão indígena.

Em 1844, o número médio de escravos em Paranaguá era relativamente pequeno: 73% dos proprietários tinham entre um e cinco escravos; apenas 10% possuíam 30 ou mais. Cerca da metade dos escravos estava ocupada na agricultura de subsistência e pouco mais de 20% exerciam ocupações domésticas.

O porto de Paranaguá, entretanto, servia para contrabando de escravos desde o século XVIII. O incidente de grande repercussão ocorrido em 1850 na baía de Paranaguá, quando embarcações que realizavam o tráfico negreiro foram apreendidas pelos ingleses do navio Cormorant, é um exemplo da persistente importação de escravos por aquele porto.

Em 1854, o número de escravos no Paraná somava 10.189, para uma população branca de 33.633 habitantes. É nesse quadro que ao triângulo português-índio-negro vieram somar-se novos elementos étnicos europeus na composição demográfica do Paraná do século XIX.

Ocupação do “vazio agrícola”

A política imigratória foi motivada pela preocupação com os chamados “vazios demográficos”. A vinda dos colonos era necessária para resolver o problema da escassez e carestia dos produtos agrícolas. Visando introduzir o trabalhador, o técnico e o agricultor na Província, Zacarias de Goes e Vasconcelos assina decreto em 21 de março de 1855. Três núcleos haviam sido instalados antes dessa data, por iniciativa do governo imperial: com alemães em 1829 no Rio Negro; a colônia Tereza com franceses no Ivaí em 1847; e a colônia de Superagui, fundada em 1852 com suíços, franceses e alemães perto de Guaraqueçaba. Esses núcleos não tiveram condições de prosperar. Os alemães do Rio Negro acabaram se deslocando para a periferia de Curitiba, onde se instalaram em chácaras.

Duas décadas após a instalação da Província a colonização entrou em sua fase áurea: de 1868 a 1878 instaram-se 60 núcleos coloniais por iniciativa oficial ou particular. Nesse período de definiu como se seguiria a política imigratória da província, tomando o rumo que perdura até o presente. A filosofia dessa política foi formulada por José Antonio Vaz de Carvalhaes em relatório apresentado à Assembléia Legislativa:

“Não contando a província proprietários habilitados a receber colonos por salário ou parceria, porque, como sabeis, sua lavoura é a chamada pequena, portanto a que menos se presta à colonização por aqueles meios, é pela venda ou aforamento de pequenos lotes de terra por módico preço, que se há de realizar, em meu entender, a colonização nesta província” [...].

Ao contrário de outras regiões do Império, onde a imigração supria a carência de mão-de-obra na grande lavoura de exportação, no Paraná o colono europeu foi colocado na produção da agricultura de abastecimento. A imigração introduziria no meio rural paranaense a renovação que iniciaria o processo de mudança da estrutura agrária.

A nova política espalhou-se pela província inteira e nos anos de 1885 e 1886, o presidente Alfredo d’Escragnolle Taunay criou sociedades de imigração em onze localidades: Paranaguá, Curitiba, Superagui, Porto de Cima, Morretes, Antonina, Campo Largo, Lapa, Ponta Grossa, Castro e Guarapuava.

Essas associações foram eficientes na promoção dos serviços de imigração. A intensificação da propaganda, a construção de ferrovias, a abolição da escravatura e a proclamação da República intensificaram a entrada de imigrantes no Brasil, atingindo-se quotas anuais de 200 mil por ano.

Crescimento da população do Paraná no século XIX decorrente da imigração

Ano habitantes

1822 - 32.678

1836 - 42.890

1847 - 47.950

1854 - 62.258

1872 - 126.722

1890 - 249.491

1900 - 327.136

Devido à crescente procura do Brasil pelos imigrantes nas décadas de 1890 e 1900, mais de 40 novos núcleos coloniais foram criados no Paraná, apoiados tanto pelo governo central ou por iniciativa de particulares e ainda pelo próprio governo paranaense.

A variedade étnica e cultural é uma constante na composição desses grupos de imigrantes. Houve, entretanto, acentuada predominância de elementos eslavos, principalmente poloneses e ucranianos.

A introdução dos imigrantes sírio-libaneses ocorreu a partir de 1890 e a dos japoneses a partir do início do século XX. Transcorridos 82 anos de colonização, desde a instalação da colônia alemã do Rio Negro, em 1829, até a fixação da colônia holandesa de Carambeí, em 1911, fundaram-se no Paraná mais de 100 núcleos de colonização, envolvendo em torno de 100 mil imigrantes.

Renovação no meio rural

A imigração no Paraná trouxe também elementos de renovação para o meio rural, com modificações na estrutura agrária. Altera-se o regime de propriedade para fixar o novo elemento. As terras das colônias são distribuídas para a agricultura em pequenos lotes de 25 a 30 hectares em torno da cidade, que tinha seu abastecimento garantido. O lote da família era trabalhado pelo colono, a mulher e os filhos e o produto seguia para os mercados próximos. Junto com as colônias desenvolveu-se a diversidade agrícola. Novas culturas foram introduzidas e outras reestabelecidas, contribuindo para o equilíbrio econômico das regiões.

Nestor Victor, em A terra do futuro (1913), diz que predominava na terra do polaco o centeio; a videira era o que mais se via na lavoura do italiano. Ao lado disto os polacos plantavam milho, feijão, batata inglesa, batata doce, ervilha, aveia, ervilhaca; os italianos, além da uva, cuidavam de outras frutas, em contraste com o polaco, que só abre exceção para o pêssego e a laranja”.

A tensão nas relações diplomáticas entre Brasil e Argentina determinará a localização de imigrantes no Paraná. Fundaram-se as colônias militares do Chapecó e Chopim, em 1882. Para ligar a região com o restante do país, o Império determinou a construção da ferrovia Curitiba-Paranaguá, logo estendida até Porto Amazonas, ponto inicial da navegação do Rio Iguaçu. Com o início da navegação de Porto Amazonas até União da Vitória, iniciou-se a fixação de imigrantes a partir de 1890. Nasceram então na margem direita do rio (a margem esquerda estava em disputa com Santa Catarina) as colônias de São Mateus (1890), Água Branca, Santa Bárbara, Palmira, Rio Claro (todas em 1891), Eufrosina, General Carneiro, Canta Galo (em 1892), Antonio Olinto (1895), Prudentópolis e Mallet (1896).

A revolução federalista paralisou em 1895 o serviço de imigração para o Paraná, retomado em 1907, quando eclodiu um surto batizado de “novas colônias federais”.

Nessa nova etapa de colonização alcançaram-se terras mais afastadas, já à altura do centro do estado. Nasceram então as colônias de Senador Corrêa, Ivaí (ambas em 1907), Irati (1908), Vera Guarani (1909) e Cruz Machado (1910). Poloneses, ucranianos e alemães foram os elementos humanos predominantes nessas novas colônias.

Após a Primeira Guerra Mundial, o japonês predominou nas várias correntes imigratórias dirigidas ao Paraná. Esses contingentes ocuparam e formaram núcleos importantes em Uraí, Assaí, Londrina, Bandeirantes, etc.

O litigio com a Argentina

Brasil e Argentina disputaram uma área de 30 621 km2 por mais de um século. O litígio arrastava-se desde a assinatura do Tratado de Santo Ildefonso (1777), que definiu as terras portuguesas e espanholas no sul do Brasil.

Pelo tratado, definiam-se como pontos fixos na fronteira os rios Uruguai (antigo Goyo-En), o rio Paraná e um trecho do Iguaçu. Entre os rios Iguaçu e Uruguai o tratado estabelecia que a fronteira passaria pelos rios Peperi-Guaçu ( afluente do Uruguai) e pelo Santo Antonio (afluente do Iguaçu).

As expedições de demarcação, entretanto, nunca chegaram a determinar esses pontos no território compreendido entre os rios Iguaçu e Uruguai.

Nenhum dos dois governos pretendia uma solução militar para a controvérsia e resolveram criar em 1885 uma comissão mista para estudar o assunto. Não houve entendimento nas negociações e optou-se pelo arbitramento.

O árbitro escolhido pelos dois países foi o presidente dos Estados Unidos, Grover S. Cleveland. O barão do Rio Branco incumbiu-se da defesa brasileira. No dia 6 de fevereiro de 1895 o presidente Cleveland anunciou sua decisão em favor do Brasil.

Como argumento principal, Rio Branco apresentou a posse efetiva da terra por brasileiros (uti possidetis). O censo de 1890 indicava 5.793 habitantes na região, dos quais 5.763 eram brasileiros e 30 estrangeiros. Entre estes, nenhum era cidadão argentino.


Consulta

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