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Evolução da Província
O Paraná viveu sob a condição de província durante 36 anos (de 1853 a 1889), teve 55 presidentes (em média, bem menos que um ano para cada administrador). O cargo era ocupado por políticos em trânsito para o parlamento ou ministérios.
O primeiro relatório do primeiro presidente provincial descrevia de maneira pouco animadora a situação da economia da nova província:
[...] presentemente é forçoso reconhecer, a erva-mate e a criação absorvem a atenção e atividade da grande maioria dos habitantes da província, aquela de ricos e pobres, esta dos homens abastados que possuem campos [...] No entanto, o mate é hoje o ramo preponderante na indústria da província. O estado atual desse ramo de riqueza está, entretanto, bem longe de ser lisonjeiro e o futuro ainda menos favorável se vislumbra [...] No outro ramo de trabalho de gosto geral, a criação [...] pode-se com segurança afirmar que [...] tudo anda entregue exclusivamente à provida natureza [...].
[...] As fábricas de mais importância na província ressentem-se do estado de atraso da indústria, a cujos produtos dão nova forma e valor adicional. São engenhos: de socar erva (em número de 90, pouco mais ou menos) onde o mate recebe o último benefício e preparação; de serrar madeira, em muito menor número; de descascar arroz, poucos; de fazer açúcar e aguardente, em pequena escala alguns.
A administração de Zacarias de Goes e Vasconcelos teve como principais realizações:
- a divisão da província em três comarcas: Curitiba, Paranaguá e Castro
- a criação de uma companhia policial para dar segurança à população
- o início da reconstrução da estrada da Graciosa, que ligará Curitiba a Antonina
- a instalação de várias escolas primárias
O Brasil terá profundas transformações políticas, sociais e econômicas na segunda metade do século XIX. Desde 1844 o comercio exterior do país encontrou novas possibilidades de expansão. A introdução do trabalho assalariado, principalmente nas fazendas de café em São Paulo, e a abolição gradativa do trabalho escravo desde 1850 modificavam e dinamizavam o comercio interno. Nessa conjuntura, a economia provincial do Paraná mudava seu caráter de subsistência para uma fase de comércio. A produção para exportação substituiu quase completamente a produção de subsistência da própria comunidade.
Dois negócios passaram a predominar: a exportação da erva-mate e o comércio de tropas muares, compradas no sul, invernadas no Paraná e vendidas na feira de Sorocaba. Esses negócios eram rendosos e fáceis: a erva-mate nativa não exige cultura e o comércio de animais, apesar de exigir capitais, proporcionava rendas com o simples arrendamento para os períodos de invernagem.
A maioria da população abandonava cada vez mais os trabalhos da agricultura, agravando o abastecimento. Em 1860, a população da província chegava a 80 mil habitantes e o abastecimento era feito principalmente pela importação de artigos do exterior e de outras províncias.
Erva-mate
Já em 1826 a exportação da erva-mate era a base de todo o comércio exterior da 5ª Comarca, através do Porto de Paranaguá. Entre 1852 e 1860, as exportações do produto multiplicaram em valor por quase duas vezes e meia. No entanto, a erva-mate produzida no Paraná desde há muito tempo encontrava as mais sérias dificuldades junto aos mercados compradores, por causa da qualidade inferior provocada pela fraude na produção, que consistia na mistura de outras plantas e gravetos.
A reconstrução da estrada da Graciosa, ligando mais facilmente Curitiba ao litoral, transfere para o planalto a quase totalidade dos engenhos beneficiadores que se localizavam no litoral. Isso facilitará muito o trabalho daqueles que se dedicavam apenas à coleta do produto, e que antes eram obrigados a levá-lo às costas até o litoral. Os ervatais silvestres estavam ao alcance da maior parte da população, sem distinção de sexo ou idade. Todos estavam aptos a trabalhar no seu primeiro e “fácil” processo. Eliminada a necessidade de transporte, um maior número de pessoas passaria a dedicar-se a essa atividade, incrementando a produção. O governo provincial baixou normas de produção e transporte, para melhorar a qualidade do produto.
A Guerra do Paraguai afastou o principal concorrente, deixando-nos os principais mercados consumidores – Argentina e Uruguai. Assim, de 1864, início do conflito, até 1870, no seu término, a exportação do produto paranaense duplicou em quantidade: passou de pouco mais de sete mil toneladas para além de quatorze mil. A erva-mate predominará como produto de exportação até as primeiras décadas do século XX.
Madeira
A economia paranaense de exportação não era constituída apenas da exploração da erva-mate. A madeira, especialmente o pinho, era o grande potencial para a exportação, devido às imensas reservas existentes. O Paraná sempre exportou madeira, especialmente as de qualidade nobre como o mogno. Mas a década de 1880 será para a atividade madeireira um período de euforia.
Com a expansão da economia nacional e o conseqüente surto de urbanização ocorridos no Rio de Janeiro e São Paulo, registrou-se um considerável aumento no consumo da madeira. A conclusão da ferrovia entre Curitiba e Paranaguá, em 1885, e a isenção de impostos provinciais e municipais e de taxas de barreiras sobre toda a madeira exportada determinou o fenômeno. No final do século, entre 1896 e 1899, existiam no Paraná, sobretudo ao longo da linha da Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande, 64 serrarias em produção.
Criação de gado
Um relatório apresentado em 1881 pelo presidente da Província alertava oficialmente para uma situação que vinha se agravando:
“Um ramo de comércio, que de alguns anos a esta parte decaiu consideravelmente – o de animais muares e cavalares que, trazidos do Rio Grande, eram levados à feira de Sorocaba [...] os números exprimem a oscilação e a decadência do comércio a que me refiro”.
O relatório apontava que isso se devia à diminuição da procura de animais nas províncias que deles se supriam, em razão do prolongamento das estradas de ferro que iam substituindo os serviços feitos outrora por bestas.
Face à conjuntura que se agravava já em 1860, fazendeiros e governo se preocupavam com o estado de abandono da criação de gado. Nesse ano, o Barão de Tibagi apontava: “[...] a ausência de raças que regenerassem a antiga, e o alto preço porque chega o sal ao fazendeiro, por falta de boas estradas, são as causas essenciais do estado pouco lisonjeiro desta indústria entre nós”.
A situação era diferente daquela que levou ao desenvolvimento da criação de gado nas fazendas do Paraná do século XVIII. O mercado interno naquela época tinha carência e oferecia altos preços aos produtores. Nas últimas décadas do século XIX, porém, aqueles mercados contavam com alternativas de abastecimento. As fazendas do Paraná, depois de limitarem a produção por longo tempo, teriam de se refazer para competir. Esse quadro trazia um rápido processo de empobrecimento para os fazendeiros.