Território e povoamento
A história do povoamento do Paraná se constitui numa série de episódios de curta duração e quase sem unidade entre si até o século XIX.
O povoamento do Estado não seguiu o esquema que definiu a ocupação humana em todo o território brasileiro – o triângulo português-índio-negro.
As circunstâncias históricas não quiseram que o índio viesse a contribuir de maneira sensível na formação da população paranaense. O Paraná também não chegou a conhecer a escravatura em larga escala ou a acentuada mestiçagem verificada pela história brasileira nas demais áreas. O povoamento resultou em três ciclos: a mineração, a criação e comércio de gado e a pequena agricultura, na definição de Romário Martins, um dos mais expressivos historiadores do Paraná.
O homem branco, a princípio de origem ibérica, e de origem mais largamente européia em seguida, fez do Paraná uma província e, mais tarde, um estado em que a população se define por características absolutamente inconfundíveis. A província do Paraná foi uma criação sociológica e não puramente administrativa, em contraste com o que ocorreu às demais províncias brasileiras.
“O atual território do Paraná”, descreve Romário Martins, “ficava no ocidente da linha imaginária de demarcação das conquistas reservadas a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas (1494), pois essa linha, segundo os cosmógrafos espanhóis, caía no mar, na altura de Iguape. Para os portugueses, terminava na altura de Laguna, e a expedição de Pero Lopes de Souza (1532) procurou estender o direito lusitano ainda mais ao sul, colocando marcos na foz do Rio da Prata”._
“Se prevalecesse a marcação da linha que terminava em Iguape”, continua o historiador, “todo o território hoje paranaense estaria compreendido no direito espanhol; se prevalecesse a linha que terminava na Laguna, apenas uma faixa marítima estreita, que não excedia a Serra do Mar, seria domínio português”._
O meridiano de Tordesilhas teve de ceder tempos depois á realidade de povoamento efetivo desse território.
Para incrementar a exploração do território, Portugal dividiu a costa brasileira (o interior era uma incógnita) em 12 setores lineares denominados capitanias, que seriam hereditárias, de acordo com Caio Prado Jr. Na História Econômica do Brasil.
Martim Afonso de Sousa e seu irmão Pero Lopes de Sousa receberam as terras mais meridionais, divididas em duas capitanias, inicialmente chamadas de São Vicente e de Sant’Ana.
A capitania de São Vicente, ao norte, foi doada a Martim Afonso de Souza e a de Sant’Ana, no litoral sul, a Pero Lopes de Sousa. O território que forma o Paraná atual fazia parte dessas duas capitanias. O processo de ocupação foi lento e descontínuo. Tudo indica que até por volta de 1550 a fixação dos portugueses no litoral paranaense ainda não se concretizara.
A ocupação efetiva veio do interior para o mar por iniciativa dos espanhóis de Assunção, a partir de 1554, quando decidiram fundar algumas vilas no território hoje do Paraná.
A estratégia espanhola era de submeter cerca de 200 mil índios habitantes da região de Guaíra e de paralisar a penetração portuguesa que avançava além da linha fixada pelo Tratado de Tordesilhas. Aos espanhóis também interessava uma saída marítima para o Atlântico pela baía de Paranaguá.
Adelantados e encomiendas
A primeira tentativa dos espanhóis para dominar os indígenas e ocupar o território se deu através da nomeação dos adelantados. Eram em geral indivíduos de posses e lhes cabia explorar as riquezas do território depois da “pacificação” dos indígenas transformados em mão-de-obra. Em troca, os indígenas pagavam um tributo ou prestavam serviços chamados encomiendas. A cobiça dos espanhóis fez o sistema degenerar em escravidão pura e simples.
Os espanhóis saíam de Assunção, atravessavam o Rio Paraná e estabeleciam os pueblos ou missões até as barrancas do Paranapanema. A primeira tentativa se deu com a fundação da Vila de Oitiveros, abaixo de Sete Quedas, no Rio Paraná, em 1554. O plano fracassou três anos depois e a vila foi abandonada por causa dos índios hostis. Em 1557 a população da Vila de Oitiveros foi transferida para a foz do Rio Piqueri, onde se fundava a Ciudad Real del Guairá. Em 1576, entretanto, os espanhóis obtiveram sucesso nas margens do rio Ivaí, próximo à foz do rio Corumbataí, onde estabeleceram a Vila Rica del Espírito Santo.
Para contornar a situação, o governo espanhol resolve delegar aos jesuítas, a partir de 1610, a missão de submeter os indígenas. Os religiosos transformaram as aldeias em reduções, pequenos núcleos de povoamento, onde o indígena recebia educação religiosa, habitação e trabalho em regime de vida comunal.
Os índios que habitaram originalmente o Paraná pertenciam a duas áreas de cultura, de acordo com a classificação de J. H. Steward: da floresta tropical e da área marginal.
Os primeiros, da floresta tropical, representado pelos tupi-guarani, conheciam a navegação fluvial, a cerâmica, a rede e a agricultura. Os principais grupos eram carijó, tingüi e xetá.
Os índios do grupo marginal eram formados por tribos que desconheciam o uso da rede e possuíam conhecimentos apenas rudimentares da cerâmica e da agricultura. Viviam da coleta de alimentos silvestres, da caça e da pesca. No Brasil esse era o estágio dos Ge, também conhecidos como tapuias.

