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As reduções

A autorização que delegava aos jesuítas espanhóis a missão de catequizar os indígenas remanescentes do sistema de encomiendas se estabeleceu pela Carta Régia de 1608, que criava a Província Del Guairá nas terras ocidentais do Paraná. Os limites estavam assim definidos: a leste, até o rio Tibagi; ao norte, ao rio Paranapanema; ao sul, ao rio Iguaçu; e a oeste, ao rio Paraná.


A organização desses aldeamentos tinha base na vida comunitária, e prosperaram extraordinariamente nos cerca de dez anos de atividade. A grande maioria dos aldeados era formada de guaranis, seguidos de tupis e carijós.

A atividade econômica desenvolvia-se na coleta da erva-mate, na plantação comunal de mandioca e milho, entre outras. A pastagem do gado era conjunta. Ao homem cabia a agricultura e a pecuária. A mulher ocupava-se do artesanato, da produção de tecidos de algodão e de lã. Os jesuítas introduziram os ofícios e formaram índios carpinteiros, tecelões, ferreiros, pintores, escultores, fundidores. As reduções produziam tudo o que se necessitava para a sobrevivência. O excedente era vendido. A prosperidade permitiu a edificação de igrejas mais suntuosas que as de Assunção.

As aldeias obedeciam a planejamento urbanístico, divididas em quadras que davam para a praça, geralmente situada no centro da povoação. A igreja, a casa dos padres, a escola, as oficinas, os depósitos e cemitério se instalavam num único lado. As habitações das famílias indígenas, erguidas em forma simétrica em taipa com teto de duas águas, ocupavam o restante da área. A organização esmerada previa até alojamentos especiais para idosos e viúvas, além da área para a horta comum.

O sistema evoluiu positivamente e em pouco tempo 13 aldeamentos organizados abrigavam grande número de índios até então nômades ou espalhados em pequenos grupos. Romário Martins menciona que “quando nenhum núcleo de população branca existia ainda em qualquer ponto do território paranaense (Paranaguá apareceria cerca de 40 anos mais tarde), os missionários da Companhia de Jesus aldeavam pelos vales do Paranapanema, do Tibagi, do Ivaí, do Piqueri e do Iguaçu, 13 povoações, com mais de 100 mil habitantes”.

O êxito das reduções trouxe aos jesuítas a oposição dos espanhóis de Ciudad Real e de Vila Rica, pois a maioria dos indígenas era arrebatada e havia a concorrência dos produtos das reduções para exportação, principalmente a erva-mate. Logo outro inimigo se juntará a esses, e destruirá a obra: os paulistas predadores de escravos.

A ocupação espanhola no território paranaense se extinguirá pelas ações dos bandeirantes paulistas, entre 1629-1632. Preocupados com a penetração espanhola para o leste e sonhando com as minas de prata do Potosí, nos Andes, os paulistas também se ocupavam com a caça do índio para trabalhar como escravo na lavoura. O índio era o “remédio da pobreza” do paulista e o grande meio de lucro. A captura e o comércio de índios era atividade essencial dos paulistas entre 1590 e 1630.

As bandeiras paulistas também consideravam a captura de índios aldeados uma fonte de lucro ainda maior, pois eles já tinham alguma instrução e praticavam ofícios.

As principais expedições contra as reduções foram comandadas por Manuel Preto, Raposo Tavares e Fernão Dias. As ações foram inúmeras: só Manuel Preto comandou cinco e os índios aprisionados foram vendidos em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.

Romário Martins estima que dos 100 mil índios aldeados, 15 mil morreram na luta e 60 mil acabaram aprisionados e vendidos. Affonso de Taunay narra que desde a fundação de São Paulo, os paulistas gabavam-se de nunca terem aprisionado um volume tão grande de índios de uma vez. Apenas Raposo Tavares teria trazido 20 mil, de acordo com Taunay.

A expulsão dos jesuítas espanhóis e a destruição das reduções no território “paranaense” marcaram uma vitória dos portugueses na luta pela posse e conquista do território.

Mas as expedições paulistas foram como vieram, e não desenvolveram qualquer atividade econômica significativa para o povoamento permanente do território. A ocupação das terras “paranaenses” só se dará cerca de um século e meio após a descoberta do Brasil, isto é, em meados do século XVII.

Sete Povos do Uruguai

O superior das reduções, Ruiz de Montoya, liderou cerca de 10 mil guaranis remanescentes e empreendeu uma penosa migração ao Itatim (em Mato Grosso). Nesse território, compreendido entre o Alto Paraguai, a Serra de Maracaju e Amambaí, os rios Mbotetey (ao norte) e Jejuí (ao sul) já havia missionários jesuítas. No ano seguinte (1632) foram destruídas pelos paulistas três reduções das quatro fundadas ao norte do Rio Apa. Em 1648, Raposo Tavares destruiu as reduções do Itatim.
No Tapes, região central do atual Rio Grande do Sul, os jesuítas organizaram 15 reduções. A partir de 1636 atacaram-nas Raposo Tavares e outros bandeirantes, mas houve resistência com êxito em Caaró e Caazapá-mini. Os jesuítas abandonaram o Tapes e com os índios que os acompanharam estabeleceram-se nas vertentes do rio Uruguai. Autorizados finalmente os jesuítas a armar um certo número de índios com armas de fogo, os bandeirantes sofreram grande derrota no combate de Mboreré (1641). Daí em diante não mais os atacaram.

Com os sobreviventes do Itatim e novos adeptos fundaram nas vertentes do Paraná até o rio Tebucuari as reduções chamadas Sete Povos do Uruguai, que ficaram sob a proteção dos governos das províncias do Paraguai e do Rio da Prata. Essas missões perduraram até 1801, quando foram conquistadas pela invasão rio-grandense.