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A ocupação dos Campos Gerais e dos Campos de Guarapuava
Quando se descobriu o ouro em Minas Gerais, toda a região passou a dedicar-se quase exclusivamente à mineração. Levas e levas de gente chegava cada vez mais trazendo o sonho da riqueza. Essa população enorme precisava comer, vestir-se, beber; e dinheiro não faltava – o ouro podia comprar tudo.
O gado do nordeste veio pelo vale do São Francisco e as lavouras do Rio de Janeiro prosperaram. Os gaúchos também tinham o que vender: nas estâncias sulinas havia cavalos e muares. Trazidos até São Paulo, iriam servir para o transporte dos produtos enviados para as minas; o gado de corte poderia abastecer de carne a zona do garimpo e a população do Rio de Janeiro.
Partindo das terras do Rio Grande do Sul, cortando Santa Catarina, as boiadas eram guiadas pelo rio Negro, próximo às nascentes do Iguaçu, distantes uns 150 quilômetros do litoral.
A região – os Campos Gerais –, um planalto com altitude em geral superior a 800 metros, formava um corredor natural desde o sul até São Paulo, entre duas serras: a serra do Mar e a serra Geral (ou da Boa Esperança), situada mais a oeste e num nível mais baixo de terreno.
Assim esse corredor do gado – os Campos Gerais – aparecia como um dos degraus de uma escada natural que descia no sentido leste-oeste. A topografia era suave e a maior parte do terreno se cobria de vegetação herbácea, apenas entrecortada de capões de mato, de onde os pinheiros se estendiam para o céu.
As grandes e freqüentes viagens começaram a deixar suas marcas. Rota batida, aqui um abrigo, construído e deixado para ser usado depois; ali uma cerca marcando um pouso seguro para o gado. E o que era pausa de uma só noite foi se tornando uma parada mais prolongada. Se o gado pudesse descansar mais, chegaria em melhores condições a Sorocaba e alcançaria melhores preços na grande feira que atraía compradores de todos os pontos de mineração. Surgiram invernadas para engorda do gado, alguns resolveram estabelecer estâncias, cuidar da criação ali mesmo. Grupos de pequenas e espaçadas casas apareciam à beira do caminho, formavam um povoado, e iam ganhando nomes: Castro, Ponta Grossa, Lapa, Palmeira.
O gado introduzido no planalto curitibano encontrou ambiente favorável, alcançou os Campos Gerais no século XVIII e os Campos de Guarapuava no século XIX, conquistado aos índios por meio da “guerra justa”, de que trataremos adiante.
Com a abertura das fazendas a criação passou a ser a principal atividade da população que não encontrava mercado para a sua produção agrícola. Ao percorrer os Campos Gerais, Saint-Hilaire anotou: “Não se cuida de outra coisa senão da criação de gado [...] Os homens estão sempre a cavalo e andam quase sempre a galope [...] Os meninos aprendem desde a mais tenra idade a atirar o laço”.
A criação do gado abriu caminhos e povoou o sertão. Nasceram as grandes fazendas e os pequenos sítios ao longo dos caminhos. Para conseguir uma propriedade nos Campos Gerais, o interessado escolhia uma paragem e soltava algumas cabeças de gado. Tempos depois requeria a concessão da sesmaria. As propriedades variavam entre quatro e oito mil alqueires paulistas. No período 1725-1744 surgiram cerca de 90 sesmeiros. O número de sesmarias era, porém, bem maior, pois muitos tinham mais de uma.
Os sítios eram pequenas propriedades exploradas e ocupadas verdadeiramente por seus posseiros. Ficavam próximos dos povoados e nas margens da estrada das tropas. A maioria dos sitiantes não tinha escravos, cuidavam de algumas vacas, cavalos, muares e pequenos animais, plantavam feijão e milho e abasteciam as tropas que passavam pela região.
Os Campos Gerais eram em meados do século XVIII uma frente de ocupação e exploração do caminho das tropas. Lentamente, as sesmarias expandiram-se na direção oeste e norte, ocupando os campos de Piraí, Jaguariaíva e Tibagi. Depois da independência do Brasil, em 1822, e especialmente depois da fundação da Província do Paraná, em 1853, os fazendeiros dos Campos Gerais tornaram-se a elite econômica e política do Paraná.
Guarapuava
A ocupação dos Campos de Guarapuava foi um processo mais de uma vez iniciado e malsucedido desde a sua “descoberta” em 1770. Nada menos de cinco expedições foram organizadas e levadas ao ocidente, com o objetivo de descobrir os Campos de Guarapuava, os Campos de Palmas e outras regiões ainda em poder dos indígenas.
Esses esforços eram fruto do temor do governo português de uma ocupação espanhola efetiva. Várias penetrações foram feitas pelos vales dos grandes rios, como o Iguatemi, o Tibagi, o Ivaí e outros. Entretanto, desde a descoberta e a ocupação efetiva dos Campos de Guarapuava passaram-se cerca de 40 anos. Só com a vinda da família real ao Brasil é que a ocupação se concretizou. Relata Romário Martins:
“A posse efetiva dos Campos de Guarapuava, cuja denominação abrangia os vastos territórios de Guaíra de onde os paulistas haviam, no século XVII, expulsado as organizações civis e religiosas dos espanhóis [...] novamente entrou nas cogitações portuguesas com a vinda de D. João, regente do Reino, para o Rio de Janeiro.
Embora o Tratado de Santo Ildefonso tivesse resolvido o traço das fronteiras entre Portugal e Espanha quanto aos seus domínios americanos, ainda era, contudo, motivo de cogitações a necessidade de ocupar territórios conquistados pelos paulistas além da Linha Meridiana que entre as duas coroas dividia os respectivos direitos em terras do Novo Mundo”.
Em Carta Régia de 1808, o príncipe regente determinava ao capitão-general de São Paulo “que fosse feita guerra aos índios que impediam o povoamento e dadas sesmarias nos Campos de Guarapuava e ao longo das vias de comunicação com esses campos, a partir de Curitiba, tento em vista o quase total abandono em que se achavam os Campos Gerais de Curitiba e os de Guarapuava”.
Para cumprir a determinação criou-se a Junta da Real Expedição e Conquista de Guarapuava. A 27 de junho de 1810 levantou-se no ponto onde se situava a Fazenda Trindade, uma atalaia (torre de vigia). As primeiras construções se concluíram em 1812 e iniciou-se o aldeamento dos índios.
Por alvará Régio de 11 de novembro de 1819 criou-se a Freguesia de Guarapuava de Nossa Senhora de Belém. Em 1852 a povoação foi elevada à categoria de Vila. A Vila recebeu foros de cidade em 1871.
A expedição militar de 1810 fora apenas a vanguarda da conquista. Os grandes contingentes estavam na multidão de fazendeiros dos Campos Gerais em busca de terras novas e campo limpo para ampliar as criações de gado. Moradores pobres dos Campos Gerais instalaram-se em Guarapuava e receberam porções de terra em torno da vila. Os grandes fazendeiros conseguiram mais, e levaram grande número de animais.
Por volta de 1836, Guarapuava se encontrava “muito opulenta em riquezas e população, habitada por abastados fazendeiros e negociantes, o campo todo povoado e coberto de animais de criar, não havendo mais lugar para se estenderem as fazendas e menos para o estabelecimento de novas”, de acordo com Joaquim Pinto Bandeira em sua Notícia da descoberta do Campo de Palmas”.
Palmas
A existência de largos campos ao sul do rio Iguaçu e da 5ª Comarca de São Paulo, separados dos campos de Guarapuava apenas por um sertão de poucas léguas de largura marginal desse rio, era conhecida desde o século XVII. Nessa época os paulistas os alcançaram com suas bandeiras levadas às regiões do Goyo-En (rio Uruguai) quando depredaram as missões do Uruguai.
Os Campos de Guarapuava conquistados aos indígenas estavam divididos em fazendas de criação de grande extensão. Essa ocupação atraiu novos criadores de gado e os habitantes do planalto passaram a encarar os Campos de Palmas como alternativa atraente a quem se habilitasse a conquistá-los aos selvagens.
Joaquim Ferreira dos Santos, morador em Guarapuava, organizou em 1839 uma expedição de exploração e posse dos Campos de Palmas. Bem informado sobre o rumo que devia seguir, Ferreira dos Santos atravessou o estreito sertão marginal do Iguaçu até o lugar denominado Alagoa. Regressou então a Guarapuava para trazer animais aos campos descobertos.
Outro explorador, Pedro de Siqueira Cortes, excluído da expedição de Joaquim Ferreira dos Santos, organizou por sua conta outra e lançou-se ao sertão com o mesmo objetivo: apoderar-se das terras. Abrindo caminho abaixo da passagem descoberta por Ferreira dos Santos, saiu nos Campos de Palmas, percorrendo-o na sua maior extensão. Queimou os campos e retirou-se, voltando pela picada aberta pelos primeiros exploradores.
Em pleno sertão, na picada que percorriam, as duas expedições encontraram-se, disputando violentamente os direitos sobre os Campos de Palmas. Os membros das duas expedições dedicaram-se durante todo o ano de 1839 ao transporte e assentamento do gado trazido de Guarapuava nos campos recém-descobertos, numa atividade frenética de fundação de suas fazendas. A disputa acabaria resolvida com a participação de árbitros de Curitiba. Coube a esses pioneiros o início da navegação no rio Iguaçu.
A ocupação dos Campos de Palmas reavivou a necessidade de encontrar uma passagem para as regiões missioneiras, que eram os centros de abastecimento do comércio de tropas muares. Essa estrada foi rasgada em 1844, por iniciativa do governo provincial. Partindo de Palmas, passando pelos campos de Nonoaí, no Rio Grande, o caminho atingia as missões. Nessa época teve início o tráfego de tropas muares pelo caminho das missões rumo a Sorocaba. Os campos de Guarapuava e de palmas passaram então a ser utilizados para a invernagem dos animais.