4

A fundação de Curitiba

As origens de Curitiba datam da segunda metade do século XVII e estão ligadas à mineração, à pecuária e, indiretamente, ao apresamento de índios.

A localização de uma comunidade no Planalto Curitibano, que dará origem à vila de Curitiba, é resultado direto da atividade mineradora e indireto das bandeiras paulistas.

Não há data exata para a fundação da povoação de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, futura cidade de Curitiba. Contudo, de acordo com informações registradas pelo Dr. Raphael Pires Pardinho, Ouvidor Geral da vila em 1761, pode-se admitir como iniciada a povoação por volta de 1661.

Os Campos Gerais eram passagem para o oeste e para o sul. Não despertaram a atenção dos bandeirantes para a possibilidade de exploração dos recursos naturais; o seu interesse imediato era o aprisionamento de índios. Mas, de acordo com o historiador Alfredo Ellis Júnior, foi a bandeira de Antonio Domingues a responsável pelo assentamento de Baltazar Carrasco dos Reis na região. Ele fez seu pedido de sesmaria em campos curitibanos em 1661 alegando ser morador “a alguns anos no povoado de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e que não tendo terras para lavrar [...] e como se acham devolutas as terras onde tem sua morada nas outras bandas do rio Barigui, vem pedir que [...] lhe conceda uma sesmaria de terras”.

Notícias exatas e referências documentadas só existem a partir dessa data, com a concessão da sesmaria a Baltazar Carrasco dos Reis, no Barigui, e após a ereção do pelourinho, em 1668, pelo capitão-mor de Paranaguá, Gabriel de Lara. Cerca de 30 anos depois, temos que

“Além do núcleo principal de povoadores, dos elementos da elite seiscentista do sertão curitibano”- , conforme descreve Romário Martins, - “havia os grupos aventureiros errantes arraialados nas regiões auríferas, ao sabor dos descobrimentos e das explorações, provindos dos primeiros dias da história da mineração; os gaúchos nômades, os índios e seus mestiços, gente egressa das bandeiras e de outros centros da população paulista; e os índios ‘administrados’, ‘peças do gentio da terra’, como diziam os povoadores”.

A constituição de uma autoridade na povoação era uma necessidade. A falta de repressão a esses elementos perturbadores da ordem pública; o progresso da localidade; a falta de autoridade do capitão-povoador, já velho e decrépito; e a distância e dificuldade de comunicação com a capitania de São Paulo, tudo isso motivou e forçou a elevação do povoado à categoria de vila.

O pelourinho erguido em 1668 era o símbolo da autoridade regional, mas Gabriel de Lara não realizou as eleições necessárias e os problemas políticos e administrativos da povoação não tiveram solução.

Foi então que em 1693 o povo se dirigiu em requerimento subscrito por quase todos os moradores da localidade, ao capitão-povoador Matheus Martins Leme, pedindo a criação da Vila e instituição da justiça, o que vale dizer, a organização do governo municipal. O requerimento é este:

“Os moradores todos assistentes nesta povoação de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos Pinhais que atendendo ao serviço de Deus e o de Sua Majestade, que Deus guarde, paz, quietação e bem comum deste povo, e por ser já hoje mui crescido por passarem de noventa homens, e quanto mais cresce a gente se vão fazendo maiores desaforos, e bem se viu esta festa andarmos todos com as armas na mão, e apeloirou-se dos outros mais e outros insultos de roubos, como é notório e constante pelos casos que tem sucedido e daqui em diante será pior, o que tudo causa o estar este dito povo tão desamparado de governo e disciplina da justiça. E atendendo nós, que ao diante será pior por não haver a dita justiça na dita povoação, nos ocorremos a Vossa Mercê como capitão e cabeça dela, e por ser já decrépito e não lhe obedecerem, seja servido prometer a que haja justiça nesta vila, pois nela há gente bastante para exercer os cargos da dita justiça que faz número de três povos. E pela ordenação ordena Sua Majestade que havendo 30 homens se eleja justiça, e demais de que consta que Vossa Mercê por duas vezes procurou aos capitães-mores das capitanias debaixo lhe viessem criar justiça na dita povoação, sendo que não era necessário por ter havido já aqui justiça na dita povoação, sendo que não era necessário por ter havido já aqui justiça em algum tempo criada pelo defunto capitão-mor Gabriel de Lara, que levantou Pelourinho em nome do donatário o Senhor Marquês de Cascais; Pelo que requeremos a Vossa Mercê da parte de Deus e del-Rei que visto o que alegamos e o nosso pedir ser justo e bem comum de todo este povo, o mande ajuntar e fazer eleição e criar justiça e câmara formada, para que assim haja temor de Deus e del-Rei e pôr as coisas em caminho.
E receberá mercê". (Seguem-se as assinaturas)


Gado e comércio

Os moradores de Curitiba começaram a desenvolver a criação de gado vacum, cavalar e ovino a partir de 1668. Já então diversos habitantes do planalto curitibano possuíam pequenos rebanhos. A região oferecia condições favoráveis ao desenvolvimento da pecuária, mas a criação em grande escala, em Curitiba, era impossível devido ao seu isolamento dos demais centros produtores do país.

A ligação de Curitiba com São Paulo e com o Rio Grande do Sul, através do caminho de Sorocaba-Viamão, até então mal esboçado no sertão, somente se deu a partir de 1730.

O comércio e a criação de gado tiveram importante papel no povoamento do território paranaense. Muito maior certamente que a mineração do ouro, que não fixava populações senão muito excepcionalmente, como são os casos de Curitiba, Paranaguá e São José dos Pinhais.

Foi o governador da Capitania de São Paulo, Antonio Caldeira Pimentel, quem sugeriu em 1728-1730 a ligação de Curitiba com os pampas de Vacaria, no Rio Grande do Sul. Uma nova fase para a vida de Curitiba se delineou com a mudança de atividades de grande número dos seus habitantes. Alguns mineradores se fizeram tropeiros, invernadores e criadores de gado e retiraram das minas o pessoal necessário à empreitada.

Em 1735 o comércio de tropas entre Curitiba, Itu e Sorocaba estava estabelecido com certa intensidade.

A lavoura e a criação produziam excedentes de trigo, feijão, milho, fumo e toucinho. Com a erva-mate, esses produtos eram exportados para os mercados de São Paulo, Rio de Janeiro e capitanias do norte do Brasil.

A mineração, a criação e o comércio de gado e, por fim, a roça, formaram sucessivamente os três ciclos do povoamento do território curitibano.

Mas o desenvolvimento desse núcleo evoluiu de maneira bastante lenta pelo que se conclui após a consulta aos documentos da época.

Um relatório do Ouvidor Pardinho dirigido ao rei em 1721 sobre Curitiba afirmava: “esta povoação se principiou haverá 80 anos, por alguns moradores que subiram desta Vila (Paranaguá) e levaram pela Serra acima algumas cabeças de gado vacum e algumas éguas [...] Haverá nas duas freguesias da Curitiba 200 casais e mais de 1400 pessoas de confissão”.

Saint-Hilaire, em visita à Vila de Curitiba cem anos mais tarde, em 1820 informava: “Essa cidade tem a forma quase circular e se compõe de 220 casas pequenas e cobertas de telhas [...] em grande número construídas de pedras [...] Curitiba não é menos deserta durante a semana que a maioria das cidades do interior do Brasil. Quase todos os habitantes são aqui [...] agricultores que não ocupam suas casas senão aos domingos e nos dias de festa [...] Não se conta em Curitiba senão uns poucos ricos”.

O viajante francês também descreveu o povo paranaense: “Em nenhuma outra parte do Brasil eu havia visto tantos homens verdadeiramente brancos, como no distrito de Curitiba. Os habitantes daqui pronunciam o português sem a alteração que revela mistura da raça caucásica com a vermelha. São grandes e bonitos, têm os cabelos castanhos e a tez rosada, maneiras agradáveis, fisionomia aberta e nada têm do sarcástico humor que freqüentemente torna insuportáveis os empregados e comerciantes da capital do Brasil. As mulheres têm traços mais delicados que as das outras partes do império por onde viajei. Elas se escondem menos e conversam com desenvoltura".

Expansão para o Sul

A estrada de Curitiba para São Paulo, ligando os Campos Gerais a Sorocaba, já era usada desde os fins do século XVII. Os caminhos principais para o litoral já estavam abertos, apesar da precariedade. Atribui-se ao curitibano Zacarias Dias Cortes a abertura de novos caminhos, a partir de Curitiba. Ele teria chegado aos Campos de Palmas por volta de 1720. É quando se começa a cogitar a abertura de uma estrada que ligasse Curitiba até o Rio Grande. Surgem homens que planejam a arrojada empresa e se oferecem para executá-la com recursos próprios, como Bartolomeu Paes e Manoel Gonçalves de Aguiar.

Conhecida como a “Estrada da Mata”, sua construção foi iniciada em 1728. Bartolomeu Paes de Abreu propôs em 1720 ao rei D. João V abrir inteiramente às suas custas uma estrada de Curitiba à Colônia do Sacramento. A resposta do Rei de Portugal foi afirmativa, mas Bartolomeu foi substituído no empreendimento por Francisco de Souza e Faria.

Cristovão Pereira de Abreu corrige alguns trechos do caminho aberto por Francisco de Souza Faria e chega a Curitiba em 1731 com sua tropa de 800 animais. Em 1738 é aberto um caminho do Viamão até São Paulo, sem precisar passar por Laguna. É a “Estrada Real do Viamão”, que ligava Viamão, Santo Antonio da Patrulha, São Francisco de Paula, Campos de Vacaria, Campos de Lages, Campos Gerais, Itararé e Sorocaba.

Esses caminhos vão iniciar a era do tropeirismo. Abrem-se caminhos que vão trazer o gado chucro (“de vento”), remanescente dos aldeamentos dos jesuítas e solto nos campos do Rio Grande do Sul, até São Paulo, para ser vendido na feira de Sorocaba. Ao longo desses caminhos, surgiram pousos e povoações, origens de muitas cidades desses estados.

No território do Paraná, as Câmaras das Vilas logo começaram a reclamar, alegando que seus homens se largavam para as bandas do sul na “mania” do tropeirismo e não mais regressavam.